Tinha quatorze anos quando comecei a trabalhar. Era um bar que existia na década de 1960 ao lado do  Cine Teatro Goiânia na Avenida Tocantins. O Patrão, um italiano alto chamado Max, cedeu aos apelos do meu pai, mesmo sendo eu ainda praticamente uma criança.  Os tempos eram outros, a cidade menor e mais segura e eu circulava desenvolto e sozinho a pé, de ônibus ou de bicicleta para todos os lados. Não existia na época tantas restrições e fiscalizações com relação ao trabalho infantil. Era comum ver crianças nas ruas vendendo doces, artesanatos, ajudando os pais nas feiras livres, tudo fazendo parte de um esforço comum para manter a família. Era um mal necessário pois essa ajuda  poupava os pais de contratar outras pessoas , e mantinha  os ganhos  concentrados na família. O sentimento que tive ao receber meu primeiro salário, que equivalia  a metade do salário mínimo foi indescritível. Me senti independente e  poderoso, prometi a mim mesmo que nunca iria deixar de trabalhar.  Há muito perdi minha primeira carteira de trabalho do menor.  Era uma coisa legal, documentada.  Representava o caminho para a autossuficiência.  Por tudo isso, hoje não reprovo de maneira  indiscriminada o trabalho infantil. Claro que não vamos generalizar. Mas menores com idade  de quatorze, quinze anos para cima nas classes menos favorecidas dependem de trabalhar para ajudar a família. Se houvesse alternativa eu não defenderia essa ideia, mas não contamos com estrutura  adequada . Não dispomos de escolas de tempo integral na rede pública para acolher esses menores, não contamos com escolas profissionalizantes suficientes. Os pais precisam trabalhar e não tem onde  deixar os filhos. Muitas vezes ficam fechados em casa ou soltos pela vizinhança e assim tornam-se alvos fáceis para o recrutamento pelo crime. Hoje com o estatuto da criança e do adolescente  (ECA), a lei proíbe de forma rigorosa. São previstas punições para os pais e patrões por exploração do trabalho infantil. Segundo o estatuto, a infância e adolescência  são fases para estudar,   brincar, criar fantasias, socializar. Escolas públicas existem, porém cada vez mais precárias e inseguras e são de meio período. Mas brincar onde? Socializar com quem? As famílias de classe A, e B, conseguem administrar isso porque têm recursos suficientes para pagar escolas boas, complementam o ensino com  atividades esportivas, estudo de línguas, música, etc. Porém as das classes  C e D não tem alternativa senão ocupar os filhos com pequenos afazeres para complemento de renda ou em empregos informais, a margem da lei.  Enquanto as autoridades não atentarem para a falta de investimentos em educação, a falta de recursos para dotar as comunidades com estruturas de esporte, convivência e lazer. Não deveriam ter esse nível de rigor, pois estão jogando esses menores ao sabor do vento, e ele sopra em direção a marginalidade.  Acredito que as famílias de classes sociais  mais baixas vão preferir  ver seus filhos trabalhando  em local certo e seguro, mesmo que signifique o sacrifício de parte da inocência deles, a vê-los como vigilantes ou mensageiros do crime. – Sou testemunha de que o trabalho em si, não prejudica  significativamente o curso da vida. Tive infância e adolescência. Tive tempo para brincar, estudar, socializar. Talvez começar a trabalhar tão cedo tenha me viciado, mas dos males o menor.  Há muito tempo não preciso mais do trabalho como fator de subsistência, mas de sobrevivência.  Se parar de trabalhar hoje, não tenho nenhum risco de morrer de fome. Mas com certeza morrerei de tédio.

AVP – 09/06/2017

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