Era uma moça branca  de cabelos castanhos e curtos, olhos bem escuros. Nada tinha de bela, e sua  timidez saltava aos olhos.  Já um pouco velha para os padrões da época, 28 a 30 anos. Candidatou-se entre outras para ser secretária da minha clínica numa cidade do interior de Goiás. Após um rápido processo seletivo optei por Terezinha. Era muito rápida em datilografia (fóssil de digitação). Só depois de alguns dias fui perceber que rapidez e correção são coisas bem  diferentes. Por maior que fosse o laudo (relatório), era datilografado com uma rapidez admirável, mas trazia tantos erros que tinha que ser corrigido  várias vezes.  Ela foi se acostumando com os termos médicos e os erros diminuíram  mas a média de revisão continuou alta. Segundo constava de sua ficha de inscrição tinha o segundo grau completo, mas logo comecei a duvidar disso.

– Terezinha, o Dr. Geraldo me ligou?

– Hoje não, mas ligou  “onte” ou “Antonte”.

A mão de obra era tão escassa no interior que resolvi insistir com  Terezinha por uns dois meses.  Até que chegou o dia fatídico. Fechei o caixa no final do dia, separei dinheiro e cheques, preenchi as fichas de depósitos junto com ela e mandei que fosse ao banco e depositasse. Uns vinte minutos depois ela parou na porta de minha sala,  como não disse nada perguntei:

– O que foi Terezinha, algum problema?

– Não Doutor   “pobrema”  nenhum, mas o gerente mandou trazer esse cheque para o senhor  “ducicar”. Me olhando desconfiada e vendo meu espanto  acrescentou. – Acho que é isso, é alguma coisa de doce.

-Por acaso não seria endossar o cheque Terezinha?

-Ah, é isso mesmo doutor endossar, não entendo essas coisas direito.                           Peguei o cheque, assinei no verso e entreguei de volta.                                                                    -Pronto Terezinha, o cheque está endossado.                                                                                  – Ué Doutor!  É Só assinar na cacunda?                                                                                           Respirei fundo e pensei, não dá mais. Se ela tem o segundo grau completo, o que esperar das que não tem?

AVP – Junho/2017

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