Certa vez, um professor me emprestou um livro de clínica médica antigo, que ilustra perfeitamente o que vou dizer. Naquela época não existiam exames laboratoriais sofisticados. Os equipamentos de auxilio diagnóstico eram rudimentares e pouco precisos. Sem raios-X, estetoscópios, aparelhos de pressão e outros acessórios. Só restava aos clínicos, uma detalhada conversa com o paciente (anamnese) , e minucioso exame físico. O Paciente era ouvido com atenção, tocado, palpado, auscultado, percutido, cheirado, inspecionado. Tudo para prover ao médico, subsídios para seu raciocínio diagnóstico. Só depois disso se pensava nos poucos exames complementares disponíveis. Registre-se que nessa época o médico: tinha prestígio, atendia poucos pacientes por dia permitindo maior dedicação individual, e ganhava bem.
Faço esta comparação após 40 anos de carreira na medicina. Não se trata de algo novo,  mas frequentemente subestimado. Antes do grande desenvolvimento tecnológico, os poucos exames complementares disponíveis eram requisitados após a investigação físico-clínica do paciente. Hoje o exame físico quando ocorre vem após o recebimentos dos exames. Trata-se de uma abordagem com predomínio tecnológico, e na ordem inversa.
Grande parte das pessoas que procuram o médico quer apenas ser ouvida. Tratam-se de desajustes psicológicos, carência afetiva, males da alma refletindo no corpo, ou pequenas enfermidades de fácil resolução. Geralmente saem dos consultórios frustradas com o atendimento de cinco a dez minutos em média, e com dezenas de exame solicitados.
Com o desenvolvimento da tecnologia e da informática foi aumentada a distância entre médicos e pacientes. Chegamos ao ponto em que, na maioria das consultas o médico não conversa mais que dois a cinco minutos com o paciente e encerra dizendo: “vou pedir uns exames antes de iniciar o tratamento” e lá vem dez, vinte, exames laboratoriais, Raios-X, tomografia computadorizada, ressonância magnética, ultrassonografia, eletrocardiograma e por aí afora. Hoje grande parte dos médicos não toca no paciente e alguns não medicam nem a dor antes de ver os exames. E o que é pior, praticamente não conversa com ele. Hoje nas escolas de medicina, é dado menos ênfase a abordagem humana e ao raciocínio clínico. Em geral prioriza-se a interpretação dos exames, terceirizando parte da responsabilidade pelo diagnóstico. Registre-se que hoje o médico: é desprestigiado, atende dezenas de pacientes por dia, o que não permite uma dedicação individual, vive amedrontado por ameaças físicas e judiciais,trabalha em vários lugares, e em geral ganha muito mal.
Concluindo: os pacientes ficaram prejudicados ao longo do tempo e do desenvolvimento tecnológico pela ausência de um atendimento mais individualizado, atencioso, e humano. E os médicos sobrecarregados, mal remunerados, estressados e ameaçados. Mesmo que quisessem não teriam condições de fazê-lo.

AVP – 26/06/2017

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