Sou um médico de estilo antigo. Ainda converso com o paciente. Mesmo minha especialidade sendo de auxílio diagnóstico (Radiologia), acho importante ver o paciente, falar com ele, colher uma curta história de seus males. Isso sempre me ajudou muito na hora de fazer o raciocínio diagnóstico para dar o laudo. Claro que não consigo falar com todos, mas aqueles que vão passar pelas minhas mãos procuro acolhe-los como pessoas e não como prontuários. Além disso vou acumulando ao longo da vida histórias interessantíssimas, algumas tristes, outras muito engraçadas. Claro que são conversas confidenciais, protegidas pelo sigilo profissional. No entanto, como não vou revelar nomes, datas, locais, não resisto a tentação de contar algumas, e começo por essa:

M&P 1 –  Engano embaraçoso

       Certo dia, estava atendendo a agenda de ultrassonografia e quando chegou a última ficha, finzinho de tarde, eu já estava cansado e louco para ir para casa relaxar um pouco. Não esperei pela secretária, fui até a porta, olhei para o casal na sala de espera e chamei “Dona Divina entre por favor”. Levantou-se uma mulher de aparência humilde, com uns quarenta anos aproximadamente e entrou na sala de exames. Então me dirigi ao homem, “se o senhor quiser assistir ao exame não tem problema”. Ele relutou um pouco mas depois resolveu “vou assistir, nunca vi isso” e entrou também. Comecei então com as perguntas de praxe: Motivo do exame, idade, sinais e sintomas. De repente me deu um “estalo” alguma coisa não estava batendo, antes de responder ela olhava para o homem ao lado e falava baixo e meio desconfiada. Então resolvi perguntar “vocês estão casados a quanto tempo?”.  A mulher levou um susto, arregalou os olhos e me disse “doutor, esse não é o meu marido, ele entrou aqui de atrevido”. O cidadão que não tinha culpa, pois eu havia insistido para ele entrar me falou de maneira branda e irradiando arrependimento “é verdade doutor, eu sou o motorista da Imbulança , foi eu que truxela lá de Indiara”  Não tive alternativa senão me desculpar e dizer a ele “por favor o senhor esperela lá fora”.

Fechei a porta e continuei o meu trabalho.

 

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