As pessoas pobres em geral têm dois objetivos que perseguem com tenacidade. Ter um carro, e fazer um curso superior. Eu já fazia faculdade e após um aumento substancial de salário na empresa onde eu trabalhava resolvi que era hora de comprar o carro. Era um fusca vermelho placa AB-8490 que até hoje é o meu preferido e tinha até nome, chamava-se “Aristides”.  Nós dois fizemos uma dupla duradoura e de sucesso. Naquele tempo uns dez por cento dos alunos da faculdade tinham, carro. Hoje praticamente cem por cento. No mesmo ano parte da nossa faculdade se mudou para um bairro a quinze quilômetros, e me tornei um caroneiro disputado. Não se falava, nem se noticiava tanta violência. Aristides e eu circulávamos a solta, sem nenhum tipo de preocupação, inclusive a noite, as vezes ficávamos até de madrugada em namoros furtivos, festas, serenatas, pelas ruas da cidade, bairros distantes com a certeza de que voltaríamos para casa em segurança. Ter carro naquela época era um diferencial importante, dava um certo status. Tive muitos carros, mas é dele que não me esqueço. Representou minha primeira grande conquista. Alongou minhas pernas pude enfim circular com liberdade, viajar, dar forma a um dos meus projetos prediletos, conhecer lugares diferentes e ampliar meus horizontes culturais.

                   A primeira viagem que fizemos foi para Guarapari-ES. Levei meu irmão mais novo, que não conhecia o mar, e dei carona para dois colegas de turma até Uberlândia-MG. Saímos as seis horas da manhã. Eu dirigia tão devagar que um dos colegas logo se mostrou preocupado se chegariam a tempo para assistir a um Show de Caetano Veloso as oito da noite em Uberlândia (350 km).  Naquela época se andava 350 km para um Show de Caetano. Hoje basta ir a um acampamento de sem tetos.  –  Foi uma viagem linda, mas muito estressante devido a minha inexperiência. Passamos por Belo Horizonte, Ouro Preto e outras localidades aprazíveis até nosso destino. Duas coisas marcaram nossa estadia: A primeira foi que estacionei Aristides na praia mesmo, na areia. Caiu uma chuva torrencial. Voltamos correndo e tentei sair com a areia molhada, resultado, Aristides patinou e colou a traseira de tal forma na areia que levamos umas três horas para tira-lo.  A segunda é que fomos um dia visitar Vitória. Na entrada da cidade, perto de uma ponte, atropelei um porco pequeno. Parei uns 50 metros à frente, com o coração disparado e então desci para dar assistência a “vitima”. Mas não foi preciso. Um homem alto e esguio já corria com ela no colo em direção a uma pequena favela a beira da rodovia, provavelmente em direção à panela.

                     Aristides e eu convivemos por seis longos anos. Quando se foi levou tantas histórias, algumas alegres, outras tristes, que dariam para escrever um livro. Tenho certeza que seu comprador adoraria ouvi-las, mas ele jamais trairia nossos segredos.

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