Ainda bem cedo seu Joaquim apareceu na varanda, trazendo um galo nas mãos com os pés presos numa peia de palha de milho. Dirigindo-se ao mas velho dos filhos que brincavam ali disse: “Leve esse galo para o seu Bevenuto que ele vai vender na feira”.   O garoto nem pensou em desobedecer, pegou o galo e saiu rapidamente. Seu Bevenuto era agregado da fazenda e morava a uns dois quilômetros da sede. O menino assim que perdeu a casa de vista, começou a conversar com o galo enquanto alisava suas penas: “Galinho,   não sou eu quem está te condenando a morte, sinto muito mas não tenho escolha. Foi meu pai quem mandou. Nós dois sabemos que amanhã você estará na panela de alguém…” Seus olhos se encheram de lágrimas de pena do animal.  Começou a pensar um plano para quem sabe salvar a pele do galo.: “E se eu disser que seu Bevenuto não estava em casa? Não, isso não ajudaria, teria que fazer outra viagem mais tarde”. Seguiu pensando e se aproximando do seu destino. A uns trezentos metros da casa do agregado simplesmente tirou a peia do galo e soltou no meio do capim. “Até chegar em casa eu encontro uma desculpa”.  Voltou então com os olhos vermelhos de choro.  Seu pai tinha ido para o roçado então ele contou para a Mãe: “Caí no meio do caminho, e o galo escapou , tentei alcança-lo a todo custo, mas entrou no mato e sumiu”. A mãe desconfiada, com poucas perguntas descobriu o dilema do filho e sentiu pena e orgulho ao mesmo tempo. Temeu pela reação do marido, um homem rude que as vezes se excedia na correção dos filhos. Passou o dia pensando numa maneira de ajudar o menino,  mas não queria dar-lhe o exemplo da mentira.

           Já escurecia quando seu Joaquim voltou da roça. Ao passar pelo poleiro viu o galo se preparando para dormir. Imaginando o que tinha acontecido pegou o galo e entrou na cozinha, onde os garotos já esperavam pelo pior, uma reprimenda, Uma surra, algo do gênero. O pai estava impassível olhando para o filho a quem dera a incumbência. Aproximando-se do garoto disse com uma voz surpreendente e calma: “Resolvi que não vamos mais vender esse galo. Ele é um animal muito inteligente. Aproveitou um tropeção ou um descuido seu e fugiu. não foi? Só não entendi ainda meu filho, como foi que  ele tirou a peia. Mas isso não vem mais ao caso, não vamos mais vende-lo”. Abaixou-se e abraçou carinhosamente o menino que voltava a chorar mas dessa vez de alívio e alegria. Piscou para ele e disse “coloque-o de volta no poleiro”.

AVP-NOV/2017

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