M&P2 – MEDO E ANSIEDADE

                      Todo paciente que nos chega, traz um certo grau de medo e ansiedade. Mesmo eu sendo da área diagnóstica, muitos deles quando terminam o exame, ou quando vem pegar o resultado, não se conformam apenas com o laudo e com frequência pedem para falar comigo. Atendo a todos, e quando meu tempo permite espicho a conversa porque isso é muito do meu feitio. Observo que essa atenção faz muito bem ao paciente, e a mim também pois acho muito gratificante ouvir as pessoas. Quase sempre entram com a famosa pergunta: “E aí doutor, o que que deu? O senhor pode me falar com franqueza”. Isso me traz o primeiro dilema. A função de olhar o resultado e dar a notícia boa ou ruim para ele é do seu médico assistente. Porém, não posso simplesmente manda-lo embora sem dar-lhe nenhuma atenção. E não posso contrariar o colega que pediu o exame pois é ele quem vai ditar a conduta. Pergunto o que houve, e ouço longos relatos que nada tem a ver com o caso, por exemplo: “Doutor há uns 15 dias quando fui tentar tirar uma vaca do brejo, cansei de esperar pelo Anselmo, pois aquilo é um poço de preguiça, não sei como o patrão aguenta aquele peão. O que tem de grande tem de preguiçoso…” tento abreviar “mas então seu Manoel? O que realmente aconteceu? O que o trouxe aqui? “Foi a Van da prefeitura doutor. Aquilo não vale nada, carro duro sem manutenção pneus carecas. Também o João da Diva, prefeito rouba o dinheiro todo. Outro dia mesmo…” e vai se afastando da razão da conversa. Vou conduzindo da maneira que posso, até descobrir que ele tentou tirar a vaca sozinho, fez muita força e deu um “jeito” na coluna segundo suas palavras. Bom, digo eu, seu caso não é tão complicado, o senhor está em boas mãos, seu médico vai indicar o que for melhor para o senhor. Geralmente ele sai melhor do que entrou.

                   Entra outro com a mesma conversa: “O senhor pode ser honesto comigo, eu não tenho medo de nada” Coloco o exame dele no negatoscópio e começo a olhar. Ele não olha para o exame, fica olhando para mim. Se eu chegar mais perto, mexer nos óculos ou franzir o semblante, a ansiedade dá um salto. “que foi Doutor? O que o senhor está vendo? Pelo amor de Deus doutor, tenho filhos pequenos…” Aí eu digo: “Mas você não falou que não tinha medo, que eu podia ser honesto? Cadê a coragem?” Nessa hora não tem saída e ele reconhece toda a sua fragilidade. Passagens com estas são muito frequentes. – Certa vez, uma paciente pediu para falar comigo, e já entrou chorando. “o que foi?” perguntei sem imaginar o motivo da aflição. Ela disse: “O senhor escreveu que eu tenho um caroção, isso quer dizer câncer?”. Eu não me recordava de ter escrito essa palavra em lugar nenhum. Pedi para ver o resultado. Ela estendendo a mão me entregou o laudo. Então descobri o mistério. Onde eu tinha escrito “coração”, a digitadora se enganou e digitou “caroção” e parece que ela só leu essa palavra e já estava em pânico.

                 Embora a maioria sejam  pequenas alterações, sem maiores consequências. O medo e a ansiedade são comuns a todos eles. Cabe a nós médicos  ouvi-los com calma e serenidade. Em cidades pequenas, o médico  tem as vezes que fazer papel de juiz, padre, delegado, conselheiro. É parte da nossa missão. Recomendo principalmente aos médicos jovens que assumam sua missão por inteiro, e muita, mas muita paciência.

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