Era dia de eleições. Antonio saiu de casa  no meio da manhã para votar. Reparando em seu Vavá, vizinho de frente sentado no alpendre numa cadeira de balanço falou: Bom dia seu Vavá, já votou? Não, respondeu o vizinho. Bem que eu gostaria, mas já não sou obrigado a votar, e não tem quem me leve. Eu levo, disse Antonio com pena do ancião, pegue o seu título e vamos votar. – Enquanto seu Vavá foi lá dentro Antonio pensou: “Vou doutrina-lo a votar nos meus candidatos. Vou fazer uma lista com os números pois ele nem deve ter candidatos próprios mesmo”  enquanto esperava pegou um pedaço de papel escreveu os números em sequencia, Governador, Senador, Deputado Federal e Deputado Estadual. Era a primeira vez que fazia aquilo. Pensou por um instante que poderia ser corrupção eleitoral mas logo desviou o pensamento pois o vizinho nem  iria votar mesmo. Já com a lista pronta entregou a seu Vavá quando entraram no carro. “Olhe seu Vavá, vote segundo esta lista que te passei. Digite o primeiro número e confirme, o segundo e confirme até o fim entendeu?”. Repetiu as instruções umas duas ou três vezes durante o trajeto. Votavam em seções diferentes. Antonio passou primeiro na sua, pois sabia que não tinha muito movimento. Votou em menos de cinco minutos. Dirigiram-se depois a outro bairro, procurando a seção de seu Vavá. Quando chegaram Antonio começou a se arrepender da gentileza.  Faltaram dois componentes da mesa, e os trabalhos estavam atrasados. Tentou argumentar que seu Vavá tinha direito a prioridade mas foi informado que aquela era uma seção muito antiga, e grande partes dos que votavam ali também estavam na faixa de prioridades. Seu Vavá louco pra votar, não tinha como leva-lo de volta sem exercer o seu dever cívico.  Antonio resolveu esperar já que não via saída. Depois de quase duas horas, para alívio de ambos, seu Vavá entrou na cabine. Antonio o acompanhou até a entrada mas não pode segui-lo no voto.

         Quando saíram já depois de meio dia, ambos famintos e loucos para voltar para casa.  Seu Vavá devolveu a lista a Antonio tal qual ele a havia dobrado. Percebendo que ele não tinha consultado a lista, Antonio perguntou com uma ponta de irritação: “Seu Vavá, em quem o senhor votou afinal?”. O velho fitando o amigo por alguns instantes severamente respondeu: “Você não sabe que o voto é secreto?”.

           Antonio fez o caminho de volta calado, pensando que tinha violado seus princípios morais a toa. Não tinha valido a pena, e conformou-se de que jamais saberia em quem seu Vavá votou.

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