Esse fato ocorrido no final dos anos 70, se não fosse trágico, teria sido muito cômico. Eu cursava o último ano de medicina, e fazia um estágio no ambulatório de uma empresa de energia elétrica, com mais de mil funcionários. Era sábado de manhã, eu estava ali complementando as horas de trabalho que faltaram durante a semana. O  telefone tocou, era o chefe do serviço médico , Dr. César, informando que tinha ocorrido um acidente  com alguns funcionários que faziam reparos na rede elétrica em Anápolis, com uma vítima fatal. Solicitou que eu me dirigisse a casa da vítima e iniciasse os primeiros procedimentos de amparo a viúva aos filhos. Enfim, que eu fosse o primeiro sinal de interesse da Empresa naquela tragédia.

         Requisitei um carro com motorista, e seguimos, para um bairro afastado onde chegamos em meia hora. Era uma rua sem calçamento, de fundos para um córrego poluído e malcheiroso. A cronologia não ajudou. A notícia chegou antes de mim, e eu antes do morto. Estava uma confusão. Os vizinhos em polvorosa, na porta da pequena casa. Filhos e parentes chorando pelos cantos, lamentações, gritos, desmaios eu já pensando entrei numa fria. Assim que desci do carro que tinha o logotipo da empresa, ouvi alguém dizer: “Essa desgraça desta firma mata meu Pai e agora manda esses puxa-sacos para fazer média”. Não consegui identificar o autor da frase mas senti o clima tenso. Peguntei então pela viúva e me levaram a sua presença. Sem saber muito o que fazer me identifiquei como médico da empresa e perguntei a ela se ela estava bem.  – Ah!! bem uma ova, acabo de perder o meu marido e vem você  me perguntar se estou bem?  Respondi, quero saber se a senhora precisa de alguma coisa, um calmante talvez? “Não quero coisa nenhuma, só quero meu marido de volta meu Deeeuuusss do céeeeeeu!!! ” foi sua reação. Insisti para aferir sua pressão. Estava um pouco elevada, considerando que o corpo ainda nem tinha chegado, resolvi dar uma medicação para acalma-la. Assim que ela engoliu o comprimido, um parente falou: “Não é qualquer remédio que ela pode tomar não doutor”. Não me importei com a observação, deixei a viúva deitada em seu quarto e fiquei no quintal pensando: “E quando o corpo chegar? isso aqui vai piorar muito…” De repente ouvi um reboliço no quarto e me chamaram de novo: “Acode Doutor ela está ficando muito mole e com os dedos e boca roxos”. Pensei “não me faltava mais nada”. E entrei novamente no quarto a essa altura já avaliando as rotas de fuga.  A porta do quarto ficou bloqueada pelos parentes. A janela estava aberta, mas um guarda-roupas ocupava parte do seu espaço e percebi que não daria para sair por ela. Como o terreno era inclinado, na porta dos fundos tinha uma escada e a mais ou menos um metro do último degrau uma cerca de arame farpado, depois uma faixa de capim colonião bem alto, o córrego e enfim a liberdade. Pensei se a coisa apertar será esse o meu caminho. Consegui acalmar novamente a viúva dizendo que aquilo era o efeito do remédio, que ela logo estaria mais calma etc. Por sorte a explicação serenou um pouco os ânimos. Quando a leva de parentes desimpediu a porta, fui saindo de fininho e para ninguém desconfiar que eu iria dar no pé, deixei meu estetoscópio e o aparelho de pressão numa mesinha junto da cama.  Já estava debaixo de uma mangueira no meio do lote quando o carro funerário dobrou a esquina trazendo o corpo. Aumentou a confusão, foi uma correria de gente para receber o falecido, então apressei o passo e de longe gritei para o motorista. “Vamos embora Gilberto!!!”. e deixamos apressados o local. Nunca mais voltei para pegar meus instrumentos. Na segunda feira fiquei sabendo pelo vigia, que ligaram umas vinte vezes me procurando. Mas eu já estava no aconchego da minha casa. Desde então nunca mais fui atender ninguém numa situação daquelas. É muito difícil emoção matar, então se alguém passar mal, levem para o hospital.

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