Já estava há algum tempo no interior. Para diminuir as idas e vindas numa estrada estreita e perigosa passei a pernoitar e trabalhar dois dias seguidos, revezando com meu sócio para cobrir a semana. Devido a escassez de hotéis e pousadas, dormíamos na própria clínica. Logo depois de estarmos instalados na esquina, mudou-se para o lote ao lado um templo religioso desses bem ativos, com os fiéis participando intensamente das celebrações. Toda as quartas feiras, tinha uma celebração noturna que me deixava intrigado. Começava ali pelo horário do jornal nacional e se estendia até depois das dez. Muito barulhenta, cânticos, gritos barulho de coisas caindo. Enfim, eu sempre fui curioso para saber o que se passava ali. Numa dessas quartas, o barulho aumentou, e no meio confusão uma mulher gritava e falava palavrões. Fui para a porta dos fundos da clínica, e apurei os ouvidos. Ouvia uma voz de homem falando: “Sai, sai desse corpo, ele não é seu, sai do corpo da irmã seu maligno”. Ao que a mulher respondia com uma voz rouquenha: “Não saiooooo!!! Seu desgraçado, Cachorro!!!”. Não me contive, abri a porta devagar e fui para o corredor entre a parede da Clínica e do Templo. As janelas eram altas e eu não consegui ver lá dentro. Peguei três tijolos que sobraram de uma reforma que tínhamos feito na clínica, empilhei-os junto a janela mais próxima e subi, fiquei então assistindo a seguinte cena:  O Celebrante de frente para a mulher e para a plateia de fiéis, com um pano vermelho no antebraço esquerdo e um livro na mão, provavelmente uma bíblia. Com o dedo indicador direito em riste, apontava para a mulher e dizia: “Sai satanás! Você não é benvindo nessa casa”. A mulher respondia com mais impropérios, palavrões, xingamentos. Tinha as feições contraídas e os olhos esbugalhados que cheguei a pensar: “Feia desse jeito, deve estar mesmo com o diabo no corpo”. Depois de alguns minutos dessa peleja, eu acho que o sacana do celebrante me viu, pois, dirigindo-se novamente a mulher, com o dedão em riste gritou bem alto: “SAAAAAAI SEU INFELIZ, SAI DO CORPO DA IRMÃ SEU IMUNDO, SAAAAI, SAAAAI POR ESSA JANELA” e virou o dedo para a minha direção. Senti os cabelos arrepiarem, e joguei o corpo para trás. Os tijolos desempilharam e eu caí naquele beco, batendo as costas na parede da clínica. Levantei num segundo e corri para dentro. Entrei e tranquei a porta. Passei um longo tempo com o coração disparado, pensando será que virei cavalo do demo? Aos poucos me acalmei e saí para comer alguma coisa. A curiosidade acabou de vez. Encontrei com o celebrante muitas vezes, mas ele nunca tocou no assunto, portanto persiste a dúvida: Me viu ou não? Esse templo ficou lá por uns três anos, mas eu me mantive sempre distante daquela janela.  Eu hein!!!

 

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