Não me lembro do seu primeiro nome, mas ele era mais conhecido pelo sobrenome  Sousa. Moreno escuro, gordinho, falante e uns cinco anos mais velho que eu. Fomos colegas no curso técnico/profissionalizante, ele fazia  edificações, eu eletrotécnica. Não concluímos os cursos. Sousa porque passou num concurso e começou a trabalhar numa Estatal como motorista. Eu, porque passei num exame de seleção para um intercâmbio cultural nos Estados Unidos. O progresso financeiro que Sousa apresentava fazia inveja a todos nós seus amigos. Em poucos meses comprou uma lambreta zero quilometro, roupas novas, fazendo parecer que a solução da nossa penúria financeira era passar num concurso público qualquer.

            Certo dia cruzei com o Sousa na Rua, ele na sua bela Lambreta, fez sinal para que eu parasse, aproximou-se e vendo que eu estava indo para a escola, me deu um conselho: “Deixe de bobagem, pare de estudar, você precisa se pendurar no Estado”. A seguir me convidou para seu casamento com Cleusa, uma morena com quem namorava há anos e seguiu seu caminho. Fiquei um bom tempo pensando naquele conselho. Será que ele estava certo? Mas o meu espírito, rebelde se recusava a acomodar-se.

            No ano seguinte segui para o intercambio cultural em Wisconsin, um estado no meio-oeste americano com economia predominantemente rural, e um inverno rigorosíssimo. Foi um marco na minha vida. A convivência com outro povo, outra cultura e o aprendizado de uma língua estrangeira foram partes de uma experiência que mudou para sempre meu modo de pensar, agir e até de sonhar. Voltei ao Brasil um ano e meio depois, muito mais maduro, e seguro do que queria. Alavancado pelo domínio da língua inglesa e dos conhecimentos adquiridos na escola americana consegui ser aprovado no vestibular de medicina. Exerço minha profissão de forma autônoma e isso me trouxe um progresso patrimonial proporcional a minha dedicação e ao meu esforço. Não tenho queixas.

            Nunca mais tinha visto o Sousa. Há mais ou menos uns dois anos, no meu antigo bairro voltei a vê-lo. Passou por mim numa lambreta tão velha que só pode ser aquela daquela época. Só tinha o garfo, motor e os bancos. Na garupa seguia Cleusa com as marcas do tempo, gorda e muito envelhecida. Não pude deixar de pensar em seu conselho. Às vezes as pessoas tentam nos ensinar como proceder, e sem querer nos ensinam a como NÃO proceder, e até isso é motivo para gratidão. Amigo Sousa, desculpe, mas acho que fiz a escolha certa. Fui a luta.

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