Minha avó paterna morava em Araçatuba-SP, e vez por outra íamos visita-la. Já estava ali pela casa dos oitenta, alta, magra, lúcida e extremamente rabugenta. Visita-la em si, nunca foi meu programa predileto, mas a viagem valia a pena. Íamos meu pai, meus irmãos e eu. Minha mãe sempre tinha uma desculpa pronta para não ir, acho que era o eterno problema de relacionamento sogra/nora. Como mais velho, eu reivindicava o direito de viajar na janela. Adorava ver as árvores, as casas, passando por nós, e esperava ansioso pelas várias paradas que o ônibus fazia pelo caminho, quando descíamos para fazer um lanche. Numa delas, desci antes dos meus irmãos que vinham logo atrás e, chegando primeiro ao balcão da lanchonete pedi ao rapaz que nos atendia, “três cafés por favor” e enquanto ele ia providenciar, meus irmãos se entreolharam e um perguntou ao outro “você quer café? Eu não quero, quero um Guaraná e uma coxinha”. O outro respondeu: “Não, eu também não quero, nem tomo café. Quero uma Coca-Cola e um pastel”. Aí eu fiquei bravo: “Porque vocês não falaram estou fazendo papel de bobo”. Levantei para cancelar os cafés, mais foi tarde, o rapaz já estava chegando com a bandeja e os três cafés já servidos. Meus irmãos rapidamente fizeram os seus pedidos e eu fiquei ali com três xícaras de café na minha frente. Eu espumava de raiva pois sabia que se fizesse outro pedido poderia extrapolar o dinheiro que meu pai nos deu. Não tinha coragem de olhar para os meus irmãos e silenciosamente comecei a tomar os três cafés. Nisso os dois pestinhas começaram a rir e um deles falou: “Vai gostar de café assim pra lá!”. E, seguindo nas provocações um falava “esse pastel está muito bom”, e o outro “melhor coxinha que já comi” Foi aí que percebi que os cafés amargavam demais. Com a raiva, nem me lembrei de pôr açúcar. Na hora de pagar sobrou troco, então pedi ao caixa para cobrar mais um pastel. Corri de volta para o balcão e pedi. A lanchonete era grande e o atendente foi lá no fundo buscar. Ouvi a primeira buzinada do ônibus e meu pai começou a nos chamar. Meus irmãos voltaram para os seus assentos. Eu ali angustiado esperando o pastel que não vinha, então ouvi a segunda buzinada e senti a mão do meu pai segurando meu braço e dizendo: “volte já para aquele ônibus. Você quer ficar sozinho aqui?”.  Quando pus o pé no degrau do ônibus olhei para trás e vi o rapaz chegando de volta ao balcão me procurando. Olhei para o motorista, e numa fração de segundo nos entendemos. Sussurrei para ele “meu pastel”, ele sorriu e disse vá busca-lo. Fui num pé e voltei no outro, devo ter gastado uns dez segundos. Seguimos viagem e entramos pela madrugada adentro olhei em volta, todos os passageiros dormiam, menos eu. Cafeína demais.

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