Adolfo era um rapaz com inteligência acima da média, muito querido entre seus colegas e uma pessoa que irradiava alegria e paz. Isso apesar de ter uma aparência um pouco fora do usual. Era baixo, cabeçudo, olhos ressaltados e cabelos loiros encaracolados o que lhe dava um aspecto de “carneiro de presépio”. Morava na mesma rua que Nicinha, e por ela se apaixonara desde a infância. A moça morena, muito bonita, alegre, tinha por ele uma amizade profunda. Os Pais dela tinham uma confiança imensa nele. Se tinha uma festa, só deixavam Nicinha ir se Adolfo fosse. Assim foi passando o tempo. Ele apaixonado e ela não. Era uma coisa tão velada, tão íntima dele, que não chamava atenção de ninguém, talvez nem dela, já que por timidez ele nunca tocara no assunto. Secretamente ele fazia planos para quando vivessem juntos no futuro e outras fantasias. Mas nunca compartilhou com ela.  Adolfo conseguiu um emprego no Banco do Brasil e Nicinha entrou para uma escola de Teatro. Se viam sempre, mas os interesses diferentes os distanciava um pouco. Adolfo nunca perdeu o encanto, a paixão, nem a esperança. Na estreia de Nicinha como atriz, Adolfo foi dos primeiros a chegar ao Teatro. Bem vestido, e ansioso como nunca. Nicinha saiu-se muito bem como protagonista da peça onde contracenava com Luiz Agusto (conhecido por Preto). Com a peça em cartaz por vários fins de semana, Nicinha e Preto começaram a se interessar um pelo outro até que virou namoro. Foi um baque para Adolfo que enfim caiu na real e prometeu a si mesmo que reagiria. Tocaria a vida sem se importar com quem o desprezara. E assim foi, concentrou-se em seus afazeres no Banco e seguiu em frente.

        Uns dois anos depois, chegando em casa, sua mãe entregou-lhe um convite de casamento endereçado “Ao meu amigo predileto e meu irmão Adolfo”. Ele trêmulo abriu o envelope e leu o que já  sabia, era de Nicinha e Preto.  Sentiu uma pontada no peito, avisando que o amor, que julgava superado, continuava ali, firme, latente. Fez um grande esforço para se reerguer, mas o seu abatimento era visível tornou-se uma pessoa tristonha, sem o viço que sempre o distinguira. –  No dia do casamento Adolfo acordou diferente, parecia ter recuperado a alegria, disse a mãe que seria  o mais bonito e alinhado dos convidados. Pouco antes da hora tomou um banho demorado, vestiu o terno novo, perfumou-se, alinhou os cabelos, sapatos brilhando. Colocou então um cravo na lapela e enfim considerou-se pronto. Então abriu pacote de presente. Pontualmente as sete e meia da noite sua mãe estava na cozinha preparando o jantar quando soou o disparo. Adolfo localizou com a mão seu mamilo esquerdo e puxou o gatilho.  Fim de linha para aquela tortura que sofria desde criança. Uma pena, estava tão elegante como o próprio noivo.

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