Trabalhei dez anos na concessionária de energia elétrica do meu Estado. Na época uma empresa de respeito, com prestígio local e nacional. Tinha mais de dois mil funcionários, e a sede administrativa representada por um portentoso edifício na região oeste de Goiânia, onde eu trabalhava na área de processamento de dados. Em qualquer empresa estatal, existem funcionários responsáveis e que vestem a camisa, mas também muitos “espertalhões” que têm verdadeira alergia a trabalho. Entre esses últimos estava o Lessa. Era um mulato magro, de estatura média, lotado no setor de contabilidade, muito risonho, cordial e agradável companhia. Tinha um hábito que levava seu chefe ao desespero. Chegava de manhã, batia o ponto e colocava um paletozinho de cor ocre, que alguns colegas definiam como cor de cocô no sol, em sua cadeira e simplesmente desaparecia. Todos que o procuravam recebiam a invariável resposta: “Ele está por aí, o paletó dele está ali na cadeira”, ou  “Deve estar em alguma reunião, chegou cedo,  deixou o paletó ali e saiu”. O fato é que Lessa sumia. Malandro refinado, conhecia todos os atalhos e portas laterais do prédio que lhe serviam de escape. Diziam as más línguas que ele tinha uma namorada numa rua próxima, e que aquele era o seu destino, mas nunca houve comprovação. Já próximo do final do expediente, o cara de pau reaparecia, conversava com algumas pessoas, pegava o paletó e voltava para casa.  O tempo ia passando e seu chefe procurando uma maneira de puni-lo, mandou vários memorandos para a diretoria. Ocorre  que empresa estatal no Brasil é um salve-se quem puder, parece que não tem dono. E Lessa continuava levando a vida na flauta para desconforto dos outros funcionários.

           No final do ano, havia um concurso de operário padrão. Cada departamento apresentava seu candidato, e numa votação democrática chegava-se ao escolhido. Este, recebia homenagens dos colegas, e um prêmio de quinze dias extras de férias. Naquele ano o departamento de contabilidade apresentou como candidato, o paletó do Lessa, que veio acompanhado da seguinte recomendação escrita pelo seu chefe: – “Apresento este paletó como candidato do nosso departamento, em função de preencher os requisitos exigidos. Não falta ao serviço, chega cedo, assume sua posição de imediato, concentra-se nos afazeres. Nunca é visto em conversas improdutivas com outros funcionários, nem com outros paletós dispersos pelo prédio. Trabalha sem se preocupar com aumento de salário, movimentos sindicais, ou condições de trabalho. Trata-se portanto de um operário cônscio de seus deveres e cumpridor de suas obrigações, estando apto a concorrer ao título de operário padrão”.

            Na semana seguinte, em votação apertada contra Paulinho do departamento de manutenção e Aníbal do almoxarifado, o paletó do Lessa sagrou-se vencedor. Inclusive recebeu o prêmio de quinze dias extras de férias. Pois, com todo aquele reboliço, a diretoria finalmente ficou sabendo da situação do Lessa e o suspendeu por quinze dias, com ameaça de exoneração em caso de reincidência. Numa última tentativa o pilantra ainda tentou emplacar uma ação por constrangimento ilegal e assédio moral contra a empresa, mas é claro que não prosperou. Então ele não teve alternativa a não ser emendar de vida e aposentar precocemente o paletó.

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