Quando os dias de penúria financeira começaram a ficar para trás, resolvi fazer a primeira viagem internacional com minha família. Pensando em agradar minha mulher que é portuguesa de nascimento embora brasileira naturalizada, propus que fossemos para Lisboa. A ideia foi aceita de imediato, inclusive com a aprovação dos meus sogros, que de pronto resolveram ir também. Éramos oito pessoas, quatro adultos, uma adolescente e três crianças incluindo meu mais novo que na época tinha seis meses de vida. Meu sogro, português que tinha em si o traço da avareza, alegando ter um amigo palestino que era sócio de uma agencia de turismo em São Paulo, ficou encarregado de providenciar as passagens. Em poucos dias recebi um telefonema da agência solicitando o pagamento, o que providenciei de imediato, e logo depois chegou um envelope grande pelo correio, todo escrito em árabe, selos do Iraque o que já me deixou um pouco surpreso. Ao abri-lo encontrei as passagens, de uma companhia chamada Iraq Airways, que tinha apenas um vôo por semana para São Paulo, para levar e trazer os trabalhadores da empreiteira Mendes Junior, que na época tinha várias obras em andamento aquele país. Vejam que sorte, conseguiram nos encaixar justamente naquele vôo. Para minha surpresa, meu sogro resolveu não ir mas me tranquilizou dizendo que seu amigo conhecia a companhia e que os aviões eram ótimos, todos os dois. Velho esperto, me deixou aquele pepino na mão e safou-se.

             Chegamos ao Aeroporto as seis da manhã, pois o vôo estava marcado para as oito e meia. Por mais que procurasse não conseguia achar o balcão de Check-in daquela companhia. Eu já estava ficando aflito quando num balcão emprestado pela British apareceu uma cartolina com o nome Iraq Airways. Senti um grande alívio. Porém havia uma pequena modificação no horário de partida, tinha sido alterado para as seis da tarde. Finalmente decolamos as dez da noite. Eu, minha mulher, minha sogra as crianças, e mais uns duzentos e cinquenta peões da Construtora Mendes Junior. Não tenho certeza absoluta, mas acho que éramos os únicos passageiros sem vínculo com a empreiteira. A tripulação só falava inglês e árabe. Como tenho fluência em inglês, me comunicava sem nenhum problema, e aquilo foi sendo notado pela turma da Mendes que contava com um único interprete. Logo fiquei sendo o segundo. Uma hora depois da partida comecei a ser solicitado para pedir água, refrigerante, reclamar de defeitos em alguns assentos, luzes do painel que não acendiam, enfim, assim que eu começava a cochilar,  alguém me acordava para pedir ou traduzir alguma coisa. Não serviam bebidas alcoólicas a bordo por causa do Islamismo. Mas a turma já sabia disso e trouxeram nas bagagens de mão litros de whisky, garrafas de cachaça, vodka, conhaque. Parece que cada um trouxe uma. O vôo seguia para Lisboa, Aman e Bagdad.  A gritaria a bordo foi aumentando à medida que o álcool subia. Quando eu pensei que ficaria só no barulho, apareceram alguns baralhos, e começaram um torneio de Truco. Aí sim, ninguém conseguia dormir. As crianças assustadas, o pequenino num choro contínuo. Resolvi reclamar com os comissários, que alegaram nada poder fazer, pois não falavam português e  os peões não entendiam uma palavra de árabe ou inglês.  Eu já desesperado, e com os nervos a flor da pele e ainda sobrevoávamos o arquipélago de cabo verde, metade do caminho. Os banheiros não tinham a menor condição de uso. A tripulação parou de limpa-los pois não venciam a falta de educação reinante. O sistema de exaustão da aeronave também não era suficiente para tantas emanações desagradáveis. Por fim me resignei a passar a noite em claro. Só fui vencido pelo cansaço no final da viagem em um leve cochilo logo interrompido pelo comandante anunciando a chegada ao aeroporto Portela em Lisboa.  Quando as portas se abriram entrou uma lufada de ar fresco revigorante. Agradeci aos céus pela resistência heroica que todos tivemos, e por estarmos indo para Lisboa, e não para Bagdad. Desembarcamos deixando para trás o sofrimento. Aí me lembrei, tem a volta.  Bem, a volta é outra história.

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