Maura trabalhava há anos com os Macedo, família de posses, muito conhecida na Capital. Seu patrão Ariosto era jornalista famoso, e por dois mandatos fora deputado estadual. A Patroa, Silvana era uma Madame esnobe, pouco afeita a valores culturais e ao ensino formal, tinha baixo nível intelectual. Não perdia uma chance de mostrar quem mandava na sua casa, nem de enaltecer sua posição social. “Sou bonita e chique” era o seu bordão predileto. Precisando trazer o filho Lucas para estudar na cidade grande,  Maura pediu permissão aos Macedo, que concordaram e impuseram algumas condições. O rapaz teria acesso unicamente ao barracão dos fundos onde a mãe morava, e não teria contato com os filhos dos patrões.

                 Tudo correu bem por algum tempo, mas logo Maura percebeu que Lucas tinha driblado sua vigilância e estava tendo um namoro furtivo com Diana Macedo, a filha mais velha. Repreendeu duramente o rapaz e ameaçou manda-lo de volta ao interior,  pois não queria perder o emprego. Não adiantou, embora mais discretos, o casal continuou se encontrando. O trabalho não permitia que Maura vigiasse o tempo todo. – Certo dia Silvana a chamou para conversar. A patroa estava irada, agitando na mão um papel. Era um relatório do ginecologista que examinara sua filha, constatando que não era mais virgem. A garota já tinha entregado tudo, inclusive o autor. “Vocês traíram nossa confiança e assim que Ariosto chegar vocês deixarão esta casa. Onde já se viu tamanho desrespeito?”. Maura sem saber o que dizer, ficou chorando pelos cantos até a chegada do Patrão, esperando o pior.  Enfim Ariosto chegou do trabalho. Após longa conversa com a mulher decidiram que para evitar escândalos  que pudessem prejudicar  suas pretensões políticas, a empregada não iria embora. Os jovens Lucas e Diana iriam se casar, numa cerimonia simples e seriam custeados pelos Macedo até terem condições de se sustentar.

                  Lucas passou no vestibular de Medicina, Diana em Serviços Sociais. A vida seguia sem sobressaltos, apenas com alguns atritos onde a sogra não perdia a chance de humilhar Lucas, a quem acusava sempre de parasita e folgado. Nesse tempo Maura voltou para sua terra. Terminando o curso, Lucas passou na prova de residência médica em São Paulo. Ariosto continuou apoiando, alugou um apartamento e deu uma ajuda de custo aos dois. Ajuda dispensada quando Lucas começou a trabalhar.

                 Ao voltarem, Lucas era especialista em urologia e não teve dificuldade em encontrar trabalho, tomando em definitivo as rédeas de sua vida. A sogra nunca perdoou. Sempre lembrava Lucas sua origem “paupérrima”. –  Já com uns dez anos de profissão, realizado financeiramente, Lucas construiu uma casa grande muito bonita, com amplo quintal e uma piscina maravilhosa. Logo a casa virou clube. A presença do sogro, sogra, cunhado, amigos do cunhado em sua casa tornou-se muito frequente. Chegavam sem avisar, iam logo para a área da piscina, não sem antes pegar um litro de uísque, sua bebida predileta. Ficavam a vontade, usavam todas as toalhas, sujavam os banheiros e ainda reclamavam quando nãos tinha nada para fazer tira gosto. Essa situação durou uns dois anos. Lucas não tomava atitude em consideração a ajuda que sempre recebera dos Macedo. Mas um dia se convenceu que a conta já estava paga. Chegando do trabalho, encontrou aquela bagunça e resolveu por ordem na casa: “A partir de hoje vocês só virão aqui com dia e hora marcados, cada um trará sua toalha e o que for consumir”. O sogro concordou, mas a sogra não. Levantando-se com o dedo em riste, Silvana aproximou-se do genro e disse em alto e bom som: “Quem você pensa que é seu verme? Você sempre viveu as nossas custas. Era um pé rapado a quem demos a mão. Agora você vem com essa petulância, cheio de exigências”.  Enquanto ela falava Lucas calmamente desceu os degraus que separava a área da piscina do portão de entrada e o abriu. Dirigindo-se diretamente à sogra, apontou a saída e disse “Rua! vá embora e nunca mais bote os pés na minha casa”. Silvana quis reagir e ouviu de novo: “Rua! seu depósito de botox. Caia fora daqui!” – Ariosto o sogro, quis argumentar e ouviu também: “Faça o favor de acompanha-la e mantenha distância daqui”. Diana se condoeu pelos pais e também ouviu “Se quiser pode ir junto, pois de agora em diante não serei mais humilhado por ninguém”. Seu cunhado ainda de sunga, deitado numa espreguiçadeira levantou a cabeça e reclamou “acabou o uísque.” Lucas não se conteve,  “some daqui seu infeliz, senão vou te moer de porrada” o cunhado não esperou, foi de sunga mesmo. Já estava escurecendo, olhando de volta para a casa atrás de si, percebeu que sua mulher não tinha ido. Tomou-a pelo mão e entraram. Ele sabia que ela estava chateada, mas ele nunca estivera com a alma tão lavada.

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