As cinco da manhã os feirantes já estavam instalados e prontos para iniciar as vendas. Meu pai  arrumava as laranjas na banca, borrifava com água acentuado seu frescor. Eu ali, preparando a voz, ainda o falsete próprio da infância, para gritar: “laranja pera, doce como mel, o patrão ficou louco e me mandou vender barato”. “Cheguem fregueses, porque vai acabar cedo”. E assim seguíamos até o estoque acabar o que ocorria ali pelo meio dia. A banca ao lado da nossa era da dona Alzira, uma senhora morena  com seus cinquenta anos, muito rabugenta e brigona. Usava uma muleta apoiada na axila esquerda, talvez por hábito pois passava as vezes longos períodos sem apoia-la no chão. Para ajudar em sua banca de verduras, dona Alzira trazia um neto que criara após a morte da filha. A moça teve uma hemorragia após um parto difícil. Tiveram que tirar o bebê a fórceps. Esse procedimento causou uma deformidade craniana na criança, formando uns ângulos que davam-lhe a aparência exótica. Os outros meninos logo o apelidaram de “Tonho cabeça torta”. Naquele tempo não existia o conceito de bullying como hoje. As crianças o chamavam inocentemente pelo apelido. Claro que ele não gostava, mas não fazia disso um cavalo de batalha. Dona Alzira também não gostava e volta e meia batia em alguém com a muleta por ter chamado o neto por apelido. Fomos crescendo juntos ajudando no trabalho da feira. Tonho era desenvolto, falante, colecionava gibis e figurinhas como qualquer menino da época. Tornamo-nos quase inseparáveis. Eu sempre fui um moleque muito tímido, e o invejava pela sua desenvoltura, era bom aluno sempre com as maiores notas. Aprendeu a tocar violão sozinho, e apesar daquela cabeça estranha, despertava o interesse das meninas. Numas férias de fim de ano, Dona Alzira levou Tonho para conhecer os parentes em Bom Jesus da Lapa, na Bahia. Não voltaram no tempo previsto. Meses depois Dona Alzira reapareceu na feira. Não trazia o menino com ela. Já pressentindo mas notícias me aproximei dela. Quando me viu entendeu o que eu procurava. Seus olhos se encheram de lágrimas e apenas murmurou: “Morreu, teve crupe e morreu”. Não me lembro quanto tempo, mas demorei a acostumar com sua ausência. O tempo passou com sua velocidade alucinante. Uns 15 anos depois, na escola de medicina o professor anunciou: “hoje vamos estudar uma doença chamada difteria, antigamente conhecida como crupe”. Nunca mais tinha ouvido falar nessa doença. Foi como se “Tonho cabeça torta” estivesse de volta na minha frente. Então passei a estudar com afinco a doença que levou meu amigo.

AVP/MAIO/2018

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