Aquela noite ao sair do trabalho notei uma  movimentação de carros de polícia nas cercanias do Edifício Bemosa atraindo  a atenção dos curiosos. Apresei o passo para ver o que tinha acontecido. Uma moça com cerca de vinte anos tinha se atirado do alto do prédio há poucos minutos, pois o sangue ainda líquido escorria pelo asfalto até uma boca de lobo. Algumas faixas amarelas indicavam o limite de aproximação das pessoas. Me chamou a atenção a expressão quase catatônica do delegado Mário Vicente, velho conhecido da minha família, que olhava incrédulo para aquele corpo jovem estendido  no asfalto bem a sua frente.  Aos poucos suas feições foram se suavizando. Ao abaixar-se lentamente junto ao corpo, discretamente balbuciou “Joana, o que aconteceu minha filha?”. Enquanto alisava os cabelos ensanguentados da garota seu pensamento retrocedeu vário anos.

–Papai, Papai trouxe meu boletim para o senhor assinar.

–Um minutinho, filha, vou colocar as compras na cozinha e vou olhar suas notas.

A menina ruiva sentou-se na varanda e procurou na mochila da escola o boletim  para mostrar ao Pai. Era aplicada, gostava de estudar e suas notas eram brilhantes. Após olha-las por alguns instantes, Mário elogiou muito a filha, deu-lhe um beijo carinhoso e prometeu que no verão iriam para a praia. Ela estava fazendo por merecer. Porém antes da chegada do verão, começaram seus atritos com a esposa, terminando numa tumultuada separação. Ali, na ruptura do núcleo familiar, começou o drama do Delegado. A menina ficou sob a guarda da mãe. Mário, aprovado no concurso para Delegado, mudou-se para a capital.  Em pouco mais de um ano tanto ele quando a ex-mulher tinham entrado em novo relacionamento.  A menina não se dava com o padrasto. Tentou morar com o pai, não se deu com a madrasta. Sentindo-se duplamente rejeitada, a moça começou a sair dos trilhos. Suas notas pioraram. Passou a andar com os “alunos problema” da escola. Fugia das aulas e ficavam em bandos pelas praças, inicialmente fumando, e gradativamente foram passando para experiencias mais pesadas. Alertado pela ex-mulher, o delegado jogou duro. Tentou se impor pela força, chegando a agredir fisicamente  a filha e alguns de seus amigos. Decidiu interna-la contra sua vontade em casas de acolhimento a viciados. Não obteve sucesso pois acabava sempre em fuga. Cansado de tentar, deu a luta por encerrada. Se um dia a filha quisesse que o procurasse. Teria que partir dela. Omitiu-se daí em diante, sem perceber que a rebeldia da filha era na verdade um grito de socorro.

           Não a via há uns dois anos. Soubera por amigos que ela tinha vindo para a capital, e vivia em condições de rua, mas preferiu ignorar o fato. A Mãe mudara-se para Mato Grosso já com o terceiro marido. Ao ser chamado para aquela ocorrência naquela noite, reuniu uma pequena equipe e chegaram em menos de dez minutos àquele edifício de pequenos apartamentos e má fama, sem imaginar a grande surpresa que a vida lhe reservara.

         Foi despertado de seus devaneios pela mão do comissário Gonçalves no seu ombro esquerdo e ouviu sua voz anunciando que iriam remover o corpo. levantou-se pálido, sentiu náuseas e afastou-se um pouco do grupo para vomitar. Respirou fundo várias vezes e enfim convenceu-se que teria que enfrentar para sempre o fantasma de não ter percebido os gritos da filha, e chegado muito tarde para ajuda-la. A vida não lhe daria outra chance.

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