Josué trabalhava duro. Não só administrava a fazenda, como participava de cada etapa do trabalho. As cinco da manhã estava de pé, tomava um gole de café, acordava os peões e iam para a ordenha das vacas. Despachava o leite para a cidade, e seguia trabalhando. Preparava ração para o gado, distribuía nos cochos. Utilizando uma montaria percorria os pastos vistoriando o rebanho, recolhendo uma ou outra rês doente. Se alguma vaca tivesse parido, trazia mãe e cria para o curral, para os primeiros cuidados. Depois ia para as plantações de arroz, feijão e milho, onde se ocupava o restante do dia, capinando, acerando, matando pragas. Em suma era uma rotina diária desgastante e extenuante. Tinha a ilusão que no fim de semana finalmente descansaria. Ledo engano.

               Uma parte do rebanho era da raça indiana GYR, que os fazendeiros criavam como bibelôs de luxo. Seu valor estava em que descendiam dos rebanhos sagrados da Índia, e estavam ali somente para serem levados a exposições, para o deleite do dono seus amigos e puxa-sacos. Todos os fins de semana, exceto os chuvosos, apareciam com ou sem a presença do dono, alguns de seus amigos para visitar o gado. E chegavam em horários diferentes, então era um tal de “recolhe o gado”, “solta o gado”, “recolhe o gado”, “solta o gado”. Esse ritual chegava a ser feito três ou quatro vezes no sábado e outras tantas no domingo. Os visitantes quase sempre eram os mesmos, alguns nem eram fazendeiros, não tinha uma cabeça de gado, mas era só ficar sem o que fazer na cidade davam uma comichão para irem visitar o gado do Nicanor.

                  Numa dessas ocasiões, com a presença do patrão, estavam reunidos na grande varanda da casa quando entra Nestor cheiroso, assim chamado pelo uso contumaz de colônias fortes e enjoativas. Era um dos mais insolentes puxa-sacos. Dirigindo-se ao grupo falou com a intensão de impressionar: “Esse gado está muito malcuidado, acabei de ver um bezerro muito doente, arrepiado de febre, fraco e com diarreia. Não teria aí uma sulfa, um antibiótico para dar para ele? ”. O patrão olhou para o empregado e pediu uma explicação. “Como é que é isso Josué? Não deixo faltar dinheiro para cuidar do rebanho. Agora vem meus amigos aqui visitar meu gado e encontram um bezerro nessas condições. Assim não dá, se continuar vou ter que te mandar embora. Ferido em seus brios e já de saco cheio daquela turma com a varinha de bambu na mão, que todo fim de semana vinham atrapalhar seu descanso semanal, de seus filhos, de sua mulher. Josué empertigou-se e olhando o patrão nos olhos disse: “Tem razão patrão, o senhor não deixa faltar nada, e aqui tem tudo, sulfa, antibiótico, sal amargo, remédio para diarreia. A única coisa que não tem é bezerro doente”.  E virando para Nestor cheiroso acrescentou: “E para o senhor está faltando duas coisas, conhecimentos de veterinária e educação”. Então virou as costas para o grupo e dirigiu-se para a cocheira. Quando o patrão voltou, no meio da semana seguinte, Josué foi demitido, para deixar de ser besta…

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