Ainda menor de idade,  eu trabalhava  na parte administrativa de uma empresa de laminação de aço para construção. Era uma indústria com cerca de duzentos funcionários, encarregados do trabalho de transformar grandes chapas de aço que chegavam da Cia. Siderúrgica Nacional, em barras de aço redondas para construção. Era um trabalho extenuante. As chapas eram aquecidas a mil e duzentos graus para se tornarem moldáveis, depois removidas do forno sob um calor infernal. Eram homens rudes, aculturados, grosseiros, a maioria deles provenientes de industrias de outros estados. As brigas e desentendimentos eram frequentes, e num lugar perigoso como aquele seu Adalberto o gerente, temia que pudesse ocorrer alguma tragédia. Como precaução contratou Neres, um agente da polícia civil, homem prepotente e de pavio curto, para ser o responsável pela disciplina. A Neres foi dada carta branca para resolver as divergências. Se sentindo empoderado o homem começou a distribuir ordens e proibições a torto e a direito. Me lembro que uma de suas primeiras providências foi afixar um cartaz na entrada do escritório, com os seguintes dizeres: “Proibida a presença de peões nesse recinto, se não souber ler pergunte a quem sabe”.

                  As coisas foram se desenrolando conforme era de se prever. Funcionários começaram a ser repreendidos na frente dos outros. Eram desacatados, muitas vezes humilhados, depreciados com expressões como “paraíba preguiçoso”. Valendo-se de sua condição de policial levou alguns deles presos por “desacato a autoridade”.  Ameaças de morte fazia com frequencia. E assim seguiu plantando ódio por uns seis meses mais ou menos. A revolta silenciosa foi crescendo entre os funcionários.

             Certo dia ao chegar a empresa após o almoço, notei uma concentração de funcionários junto ao portão pelo lado interno. Como aquilo não era habitual, perguntei a um deles o que se passava. ele respondeu “acerto de contas, e você fique na sua e não se meta”. Tomei o conselho por razoável, e como não me dizia respeito entrei para o escritório, mas achei prudente avisar seu Adalberto, pois já desconfiava das intenções deles.  Não deu tempo, antes que eu fizesse a ligação, ouvi uma buzina no portão. Um dos funcionários abriu e Novais entrou com seu fusquinha azul, com marcas de várias batidas. Foi imediatamente cercado por uns cinquenta peões, empunhando ferramentas de trabalho em atitude ameaçadora. Já desceu com o revolver na mão. Como estava cercado levou por trás uma pancada na nuca, bambeou o corpo deixando cair a arma. Foi carregado para o galpão onde se encontrava o forno siderúrgico. Ali puseram-no de pé na frente de Manoel Toró, um mineiro baixo, atarracado, que tinha encabeçado aquele motim. Manuel olhando o homem nos olhos disse “Você sabe que vai morrer não sabe?” Novais permaneceu calado e pálido como uma vela. Alguns segundos depois balbuciou: “Que que isso gente, vocês estão loucos?”. Toró então disse “você nunca mais vai agredir, nem humilhar ninguém” e virando-se para José Lopes, que era o encarregado do forno disse “Zé, abra a porta”.  Zé Lopes obedeceu e a porta do forno se abriu mostrando aquela grande garganta vermelha. Novais foi levantado por uns dez peões e levado para as proximidades, onde começaram a balança-lo e ele desesperado pedia pelo amor de Deus que o soltassem, aí começou a contagem regressiva , cinco, quatro, três dois um e soltaram o homem que caiu estatelado junto a boca do forno. Mal bateu no chão pulou de pé e saiu correndo a pé,  passou por seu Adalberto que chegava, pulou a catraca de entrada dos funcionários, deixou seu fusquinha e sumiu. Contei o ocorrido ao gerente, e disse a ele que achava que ele tinha ido a delegacia buscar reforço policial. Seu Adalberto falou “duvido, pelo cheiro que ele estava exalando, deve ter ido para casa tomar um banho”.

                   O fusquinha do Novais ficou estacionado no pátio da Indústria por um longo tempo. Quando saí ele permanecia lá, lembrando a todos que “Quem planta colhe”. Nunca soube se Novais voltou para receber seus direitos. Ouvi dizer que voltou para sua terra.

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