Seu Rubens tinha pouco mais de cinquenta anos. Mulato  falante e simpático. Estava internado há mais de dois meses na enfermaria de clinica médica. Apresentava uma cor amarelo-esverdeada na pele, e na esclera dos olhos, era icterícia, provocada por impregnação de bilirrubina direta, o que causava uma coceira generalizada e em alguns períodos do dia quase insuportável. Seu diagnóstico principal era um tumor no pâncreas.

                Natural de Pequizeiro, pequena cidade no Estado do Tocantins, tinha um sotaque característico e engraçado. Quase não recebia visitas da família do que tinha grande ressentimento. Eu morava bem próximo do Hospital, e no período de internato ia diariamente passar visita na clínica médica, inclusive aos sábados e domingos.  Chegado a uma bebida, provavelmente responsável em boa parte pela sua doença, seu Rubens aproveitava os fins de semana quando a vigilância era mais frouxa e fugia do hospital para o boteco do Simão, a uma quadra de distância. Sentava bem no fundo, num cantinho do bar e tomava cachaça até não se lembrar de onde tinha vindo. Simão o levava de volta. um dia sentei-me ao lado de seu leito e conversamos por um longo tempo. Expliquei detalhadamente para ele o mal que a bebia lhe acarretava, que com certeza agravaria sua doença, pois interferia na ação dos medicamentos. Durante toda a conversa, ele não parava de se coçar, e foi ficando inquieto. Quando me afastei para examinar outro paciente, seu Rubens levantou-se e foi saindo de fininho, como se fosse ao banheiro e depois sumiu da minha vista. Consegui alcança-lo quando ele já chegava ao portão lateral do Hospital. Surpreso pelo flagrante virou para mim com aquele jeito engraçado de falar e disse: “Doutor, entendi tudim o que o senhor falou, só que a conversa estava ficando muito comprida e essa  coceira me aperreando tanto que eu resolvi fugir pra tumá uma”.  Pensei em repreende-lo com veemência e leva-lo de volta à enfermaria.  Mas me contive. Pensei alguns segundos na situação daquele ser humano fragilizado por uma doença seríssima, aguardando há mais de dois meses por uma cirurgia com alto índice de mortalidade, torturado por uma coceira que não o deixava um segundo, e longe da família que não tinha condições de visita-lo. Virei as costas enquanto dizia “Vá seu Rubens, mas esteja de volta para o almoço”.

              Seu Rubens foi operado duas semanas depois e morreu no quinto dia pós operatório.  Agi por impulso naquela oportunidade, mas hoje tenho plena conciência de que os médicos não podem ser tão severos com  pacientes sem esperança. Exigir por exemplo que um paciente de oitenta anos, com enfisema pulmonar  pare radicalmente de fumar é condena-lo a uma tortura e sofrimento intensos, com pouquíssimas chances de melhora, e nenhuma de cura. É tudo uma questão de bom senso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s