Eram umas dez da noite, estava com alguns amigos no Bar Corrente, já tínhamos consumido algumas cervejas e alguém sugeriu que fossemos fazer serenata para nossas namoradas. Todos contávamos com Nilson, violeiro boêmio, expert em cantar aqueles bolerões naquela época já antigos,  junto as janelas das musas de nosso bairro. Fazia por dinheiro, bebida, ou qualquer outro agrado. A notícia de que ele tinha viajado, esfriou nossos ânimos, até que alguém sugeriu “Vamos fazer com disco mesmo, qual é o problema? o Salim tem um toca disco portátil”. Salim de pronto topou a ideia e foi buscar   o aparelho. Trouxe um único disco, um LP chamado “As  14 mais”, que reunia os maiores sucessos do momento. Eu estava meio arredio a idéia, temia dar vexame embaixo da janela de Marlene, namoradinha que tive por uns tempos. Era linda, filha de Seu Antonio, um marceneiro requisitado, e que tinha sua oficina no próprio lote onde residia. Estava sempre em casa, o que dificultava minha aproximação. Quando terminamos o planejamento apenas quatro toparam, e seguimos pela rua escura. Para topar eu tinha exigido que a minha seria a primeira presenteada com aquela serenata exótica. Aproximamos devagar para não fazer barulho, já passava de meia noite, com certeza todos dormiam, resolvemos por em prática nossa “serenata”. Salim trazia o toca disco, colocou-o no chão e o abriu em duas partes, numa ficava o toca discos, e na outra o alto falante. Eu já tinha estudado o LP, e queria tocar uma música de Roberto Carlos chamada “A distância”, era a sexta faixa do lado A.  Risquei um fósforo, posicionei o disco no lado A e disse para o Salim colocar a sexta faixa. Aumentamos o volume e ascendi outro fósforo para ele posicionar. O infeliz ficou na dúvida, não estava enxergando direito, a chama do fósforo começou a queimar meu dedo, e joguei fora. Salim no escuro soltou a agulha, aí deu-se o desastre. O que era para ser uma música romântica , saiu uma música dos novos baianos chamada “Besta é tu”. Fiquei paralisado ao constatar o erro, e enquanto isso Moraes Moreira despejava “besta é tu, besta é tu, besta é tu, besta é tu”. Enfim consegui reagir, desliguei a engenhoca, ao mesmo tempo que a luz acendeu dentro da casa e ouvi a voz do Seu Antonio “Que palhaçada é essa? Vai dormir molecada, não enche o saco, senão saio aí  e vocês vão ver”. Agarrei o toca disco e saí correndo, esqueci do alto falante que veio arrastando atrás até bater no meio-fio e quebrar. O disco com certeza virou disco voador, nunca mais encontramos. Então sem o disco, com o alto falante quebrado, as pernas tremendo como vara verde, não tivemos alternativa a não ser  desistir de nossa romântica empreitada. Marlene nunca tocou no assunto comigo, nem eu com ela, ficou por isso mesmo. Menos mal.

3 Comentários

  1. No início dos anos 60, tive um colega cujo irmão mais velho tinha uma loja de eletrodomésticos. E meu colega c sua turminha de amigos, fizeram uma serenata na praça de Ipiaú, com uma eletrola tirada da loja. Acordar c aquelas músicas foi uma sensação que até hoje me é bem vinda. Pareceu um sonho bom.

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