O silêncio do bairro pacato era quebrado com os gritos da garotada, que corria frenética pela rua de chão batido numa animada “ pelada”. Eram todos amigos e vizinhos, mas com frequência o pau quebrava. As balizas eram marcadas por dois pares de chinelas havaianas, e deixavam margem para dúvidas com relação a ser ou não ser gol. “Foi gol”, “não, foi fora”, você está roubando! Não senhor, você é quem está cego! E por aí seguiam as ofensas, até alguém fazer “elogios” a alguma mãe. Inaceitável, mexer com mãe não. Havia um silencioso código de ética entre eles cuja cláusula pétrea era “não ofenderás a mãe de ninguém”.  Quando alguém infringia essa cláusula, dava ao outro o direito de partir para a briga. Era até esperado que houvesse reação imediata. “O Carlos xingou a mãe do Fernando e ele nem reagiu! ” Aí pronto Se Fernando não partisse para a briga ficaria desmoralizado frente ao grupo.  Os garotos formavam uma roda, e os dois implicados iam para o centro resolver suas diferenças. Trocavam socos, pontapés, cusparadas. O código rezava que se algum deles pegasse uma pedra, um porrete, dava ao grupo o direito de interferir, caso contrário a contenda só terminava com alguém se dando por entregue.

              Numa dessas ocasiões, Adalberto e Bira se desentenderam. Bira era o dono da bola, mas o destino não o favorecera com habilidade natural. Era ruim de bola que dava pena. Mas como sem ele não havia pelada, ele não admitia ficar como reserva. Adalberto cansado da ruindade do amigo, pediu que ele saísse um pouco e desse lugar a Vilmar que era bem melhor. Bira disse que não sairia. Preferia acabar com o jogo. Pegou a bola e começou a se afastar. Adalberto tentou argumentar, mas diante da resistência de Bira perdeu a paciência e disse “pode ir, e enfie essa bola no r… da sua mãe”. Aí fechou o tempo. Foi sopapo para todo lado, rolaram pelo chão. De repente Bira passou a mão no rosto, e sentiu um caroço abaixo do seu olho esquerdo então começou a chorar. Houve uma trégua na briga, e todos se aproximaram para examinar o ferido. Tinha formado um grande hematoma no lado esquerdo da face de Bira. Sem esperar o fim da briga, a molecada se dispersou, cada um para sua casa, alguns chorando, outros pedindo ajuda para o amigo. Adalberto vendo o estrago que fizera, também caiu em prantos de arrependimento.  Ajudou o amigo a se levantar e o acompanhou até sua casa e explicou a mãe dele o que o correu, omitindo claro o real motivo da briga. Dona Janete mandou Adalberto para casa e foi cuidar do ferimento do filho. “Coisas de crianças” disse ela, “amanhã estarão brincando de novo”.

              Caso essa hipotética situação ocorresse nos dias de hoje, Os pais de Bira tomariam as dores, iriam à casa de Adalberto tomar satisfações com os Pais dele. Conforme o desenrolar da escaramuça a briga subiria de patamar. Os Pais se envolveriam podendo chegar até níveis de tragédia. Evidente que o mundo evoluiu, as situações são diferentes, mas o nível de superproteção chegou as raias da insanidade. As crianças, no entanto, são muito parecidas na sua essência. Perdoam e superam seus problemas com facilidade. No dia seguinte os garotos já brincavam de novo pela vizinhança. Se fosse hoje, eles estariam brincando de novo, mas poderia ser em meio a um velório.

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