Fui com minha mãe visitar tia Joana. Na verdade tia de minha mãe. Uma senhora na faixa dos setenta e poucos, que atravessava na época difíceis problemas de saúde. Obesa, diabética, com artrose acentuada em ambos os joelhos que a confinava a uma cadeira de rodas. A feiura era brinde da vida. Ficara viúva cedo, e hoje vivia com Dioclécio, um mulato que por baixo era vinte anos mais novo que ela mas dizem as más línguas que saía no tapa se suspeitasse que alguém a cobiçava. Vá-se entender os meandros do amor. Moravam num barracão de fundos na Vila operária, ao qual se chegava por um estreito corredor ao lado da casa de sua filha e seu genro. Tinha pouca mobilidade nas pernas,  mas na língua uma velocidade ferina. Fazia muito tempo que as duas não se encontravam e logo entraram num papo cujo final não se vislumbrava no horizonte. A Tia soltou o verbo. Desandou a falar dos vizinhos, do genro que ela achava muito chato, de membros da família que tenho certeza que minha mãe nem conhecia. Falava sem tomar fôlego e de termos em tempo perguntava: “vocês estão entendendo?” ou “vocês sabiam disso né?”. Mal tínhamos tempo de balbuciar um “humhum” e a metralhadora seguia seu impiedoso massacre. Sentia-se injustiçada e abandonada pelas irmãs que mesmo sabendo de sua situação pouco vinham visita-la e queixava-se disso e de tudo o mais. Ganho pequeno, aposentadoria defasada, desemprego do Dioclécio, preço dos remédios,  goteiras no barracão e tudo mais que lhe vinha à mente. Eu observava pacientemente aquela conversa, pensando no grau de carência que ela embutia. A velha senhora falava sem parar, como se não conversasse há semanas, salvo alguns monossílabos e resmungos com o companheiro.

                  Já estávamos ali por mais de hora quando tia Joana lembrou que não tinha nos oferecido nada e sinalizando para Dioclécio disparou a ordem: “faça um cafezinho pra nós”. O Mulato levantou-se e saiu para o quintal. Em seguida ouvi um barulho do sarilho da cisterna. Lembrei então que o barracão fazia divisa de muro com o cemitério Santana. Saltei da cadeira e cheguei ao quintal quando Dioclécio  recolhida o balde com a água do poço. Rapidamente disse a ele que nós não tomávamos café. Aleguei que minha mãe perdia o sono, e eu tinha úlcera. Portanto que ele não se preocupasse com aquilo. voltei ao barracão e disse a minha mãe que estavam me chamando para uma emergência no trabalho. Nos despedimos rapidamente e saímos dali antes que a tia complementasse sua hospitalidade: “Mas pelo menos um chazinho vocês tomam não?”.

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