O telefone tocou no meio da tarde quente e abafada. A secretária atendeu e me passou a ligação anunciando que que era o Eli, da funerária Terra Leve. Caminhei a passos lentos, imaginando qual seria o motivo da ligação. Conhecia Eli de longa data, mas nunca tivemos  nenhuma convivência mais próxima até porque sempre estivemos em campos profissionais antagônicos. Eu, como médico trabalhava e torcia para que meus pacientes se recuperassem. Ele, naturalmente queria que seu negocio prosperasse, então… – Após os cumprimentos ele entrou direto no assunto: “Doutor, soube que o senhor é sócio da Tratorfix em Goiânia. Acontece que meu sobrinho Felipe precisa comprar umas peças de trator lá, mas o cadastro dele é fraco. Teve umas dificuldades recentes e ficou com o nome sujo na praça. Como o senhor me conhece, gostaria que vendesse para ele sob a minha responsabilidade, se ele não pagar, pago eu”. Não costumo me envolver nas atividades de empresas onde sou apenas sócio. No entanto, como era pedido de uma pessoa de bem, conhecida e respeitada na cidade, autorizei a venda, com prazo de sessenta dias para o pagamento.

            Passado o prazo, nada de Felipe pagar o débito. Deixei passar mais alguns dias, até que meu sócio me ligou pedindo que eu verificasse o que estava acontecendo. Já arrependido do que tinha feito, pois detesto cobrar os outros, liguei para o Eli na funerária. “Desculpe amigo, mas seu sobrinho não saldou o débito, e meu sócio está me cobrando uma solução. Daria para você fazer o pagamento?”. Houve um preocupante  silêncio do outro lado, até que ele balbuciou: “Eu sei que prometi pagar doutor, mas a crise está muito grande, meu movimento está muito  fraco. Preciso de mais trinta dias”. Não vendo outra alternativa concedi a extensão do prazo. No mês  seguinte, na certeza de que iria receber, nem telefonei, fui direto. Ao me ver ainda de longe, Eli  posicionou polegar para baixo e disse “O movimento continua fraco doutor”.  Eu, me sentindo aborrecido resolver argumentar  que ele tinha prometido me pagar, sem condicionar nada ao desempenho do seu negócio. Constrangido com a situação, Eli resolveu propor uma forma inusitada de pagamento. “Doutor, não estou fugindo do compromisso, só não tenho dinheiro agora. Se o senhor concordar em receber em mercadoria por mim tudo bem. Já fiz as contas, e daria duas urnas de adulto e uma de criança. mercadoria boa, o senhor pode escolher, jacarandá, pinho, tudo de primeira”.  Tomado de supresa pela originalidade da proposta respondi “Não Eli, não tenho onde guardar. Quando você tiver dinheiro me pague”.  Recebi uns seis meses depois, e sem juros.

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