Morando nos Estados Unidos há alguns anos, Alvaro veio visitar os Pais no início dos anos setenta.  Éramos grandes amigos no curso colegial. Chegou antes do Natal, com retorno marcado para cinco de janeiro. Combinamos então que passaríamos o réveillon no Clube Jaó. Eu tinha conseguido dois convites, estava sem namorada e nenhum dos meus irmãos queria ir. Pensei, vou levar meu amigo, se a sorte ajudar arranjamos umas garotas lá no baile.  Quando informei a ele que o traje era smoking, ele disse que tinha roupa apropriada.  Na noite da festa, fui busca-lo em casa mais cedo, pois o clube era longe. Estava caindo uma chuva intensa. Eu tinha alugado um smoking e me considerava bem vestido, mesmo tendo ficado um pouco grande. Parei à porta, mas não desci por causa da chuva. Álvaro não entendeu e veio correndo debaixo do aguaceiro e entrou esbaforido no meu fusquinha. Não acreditei no que vi, meu amigo estava vestindo um paletó marrom escuro, velho apertado, com umas faixas de cetim alinhavadas na lapela, e uma gravata borboleta improvisada com uma fita azul marinho. Calça Jeans e uma botinha de camurça com uma franja atrás completavam a bizarra fatiota. Meio assustado perguntei: “Cadê o smoking rapaz? ”. Ele revelou meio constrangido que na verdade não tinha e emendou: “Minha irmã disse que arrumava um e eu confiei. Não está bom não? ”.  Me esforcei para conter a gargalhada. Respondi: “Não está muito dentro das normas, mas vamos lá quem sabe temos sorte. Agora não dá mais tempo de alugar outro”.  Conformado segui para o clube que era fora da cidade.  Fomos conversando sobre nosso tempo na Escola Técnica, sua vida nos Estados Unidos, amigos comuns, namoradas antigas rindo e nos divertindo muito.

              Chegando ao clube, era grande o movimento. Ali se reunia boa parte da alta sociedade local. Escondi o fusquinha por trás dos carrões no estacionamento e corremos para nos abrigar da chuva que ainda caía, agora mais fraca. Haviam filas na entrada e assim que chegamos a um espaço iluminado, olhei novamente para  Álvaro conferindo sua vestimenta tão original. Agora com uma agravante. Ao correr na chuva para entrar no carro, ensopou aquela lapela de cetim barato e ela estava agora toda franzida, com um aspecto de fole de sanfona. A gravata borboleta tinha descorado e se transformado num interessante dégradé. O conjunto dava-lhe um aspecto mais aproximado a um palhaço. Começamos a chamar a atenção. As pessoas olhavam e saiam rindo de fininho, mostrando para as outras. Alguém gritou: “O carnaval é em fevereiro”. Quando chegou nossa vez de entrar tentei ir na frente para que o porteiro não reparasse tanto, mas não teve jeito. Fomos barrados na festa como era de se esperar. Sem opção passamos aquele réveillon no ‘”Bagainha”, um bar no centro da cidade. Eu de smoking e ele de palhaço, sozinhos e achando ridícula aquela exigência de traje a rigor.

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