Na sala de anatomia quente e abafada, um cheiro forte de formol tomava conta do ambiente. Várias mesas de mármore dispostas em fileiras simétricas exibiam cadáveres em diferentes decúbitos como que convidando os alunos a estuda-los disseca-los, ampliando seus conhecimentos sobre o misterioso corpo humano. Em uma delas, na primeira fileira,  o professor Raul, aplicava uma prova de reconhecimento de órgãos a Cabral, um aluno inteligente, mas que tinha um bloqueio qualquer com aquela disciplina, tanto que estava ali pela quarta vez. Já cursava o quarto ano e ainda devia aquela matéria do primeiro. Calmamente o velho professor pinçou um órgão qualquer do abdômen e pediu que o veterano aluno o reconhecesse. Cabral respirou fundo, olhou  para para a pinça, para o teto, para o chão,  enquanto  pensava que diabo de estrutura  era aquela. Não tendo certeza tentou arriscar com voz firme para afastar suspeitas de titubeio, “Artéria renal direita”, e esperou a concordância do professor. Tratava-se no entanto  do ” colédoco”.  O mestre que estava de pé, sentou-se num tamborete alto junto a mesa e se dirigiu ao aluno em tom quase paternal: “Cabral meu filho, você  já está aqui pela quarta vez e não consegue acertar uma questão simples dessa. Não sei o que fazer com você. Porque você não estuda como os outros?”. Retornando ao cadáver, pinçou outro órgão. Cabral arriscou de novo depois de reclamar do calor e olhar para o além, “Bexiga”, e olhou o mestre com cara de agora sim!  Só que era o “reto”.  Professor Raul desceu do tamborete olhando com descrença para Cabral disse: “Acho que não vai ter jeito”. Nesse momento, Armando o técnico de necrópsia que auxiliava o departamento de anatomia, cruzava a sala em direção a saída. O mestre tentando ridicularizar o aluno se dirigiu ao funcionário  “Armando, você vai lá fora e quando voltar me traga um feixe de alfafa”. Cabral era vivo,  percebendo  a ironia do professor, não se conteve e também se dirigiu ao técnico, “E para mim uma coca-cola e um pão de queijo”.  Dizem que até o cadáver fez ar de riso. Irado o professor jogou a pinça sobre a mesa e foi embora. Cabral olhou em volta, a sala estava completamente vazia então comentou para si mesmo “Eu posso não ser um aluno muito inteligente, mas isso não lhe dá o direito de me humilhar, me ridicularizar”. Ferido em seu orgulho, estudou um pouco mais e passou no ano seguinte, examinado pelo mesmo professor Raul, que pelo jeito entendeu o recado.

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