No ônibus Grajaú-Centro, Nonato cochilava com a cabeça apoiada na janela. Aquele era seu trajeto diário, descia perto da estação das balsas e embarcava para Niterói onde trabalhava como palhaço no circo Gran Espetáculo. assustou-se quando ouviu “É um assalto”, seguido de gritos e sussurros. Sentiu um arrepio, mas se conteve. Olhando com o canto do olho viu um mulato alto e magro, com uma arma na mão. Foi flagrado na espiadela. O assaltante aproximou-se e sem maiores delongas desferiu-lhe um tapa com a mão aberta no rosto, que quase o nocauteou. Seu sangue nordestino ferveu, atracou-se com o bandido contrariando as advertências para não reagir. Ao caírem no chão do veículo soou o primeiro disparo. Engalfinharam-se por mais alguns segundos e ouviu-se outro tiro. O bandido retesou-se e soltando Nonato, virou o rosto para a direita, exalou um forte suspiro, e ficou inerte com a arma ainda na mão.  O motorista abriu a porta e todos os passageiros desceram e espalharam-se pelas ruas vizinhas. Nonato, cidadão de bem, trabalhador, e não tendo nada a temer, pois tratava-se de legítima defesa, resolveu esperar pela polícia.

                 A viatura chegou em cerca de cinco minutos. Um dos policiais entrou no ônibus com a arma na mão para evitar surpresas. Nonato, já refeito da descarga de adrenalina, relatou o ocorrido com o máximo de detalhes. Repetiu a história para o Capitão que subiu em seguida. “Alguma testemunha? ”, perguntou o Capitão.  “Tinha uns vinte passageiros”, respondeu Nonato. “Onde estão? ” Insistiu o oficial “Não sei, saíram correndo quando o motorista abriu a porta”. Ao descerem havia se juntado uma pequena multidão de curiosos. Alguns penduravam na janela para ver o morto. O motorista contava a história num boteco do outro lado da avenida, onde os policiais o encontraram.  O oficial resolveu levar Nonato e o motorista para a central de polícia para fazer a ocorrência.  Permaneceram ali por mais de duas horas, lembrando e relembrando os fatos para o delegado, enquanto outro policial verificava os documentos dos dois. Em seguida, o motorista foi liberado alegando que não vira nada, pois estava de costas para o fato. Era a terceira vez que seu ônibus era assaltado. Nonato permaneceu detido pois não havia testemunhas que confirmasse a versão de legítima defesa. Não tinha dinheiro para advogado, ficou quase um mês no xilindró. Quando saiu havia perdido o emprego e estava proibido de deixar a cidade até o desfecho das investigações. Para completar recebeu dias depois uma carta de uma ONG de Direitos Humanos, que o recriminava por ter reagido e causado a morte de um ser humano. Aí é dose! jogou a carta fora, enquanto pensava “porquê não desci do ônibus e me mandei?”

 

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