Nas eliminatórias para a copa do mundo e taça libertadores da América, o fato sempre se repetiu. Ao jogarem nos locais com altitude muito elevada, (Cidade do México, La Paz, Quito,  Potosi), com baixa baixa concentração de oxigênio, nossos jogadores sentiam grande desconforto respiratório, que repercutia em seus sistemas músculo-esqueléticos, acarretando um desgaste acentuado em suas condições físicas. Raros eram os que não terminavam os jogos com a língua de fora. No banco de reservas ficavam cilindros de oxigênio para atender os mais comprometidos. Para ser bem franco, eu já formado em medicina acreditava que era frescura e fingimento para justificar possíveis maus resultados.  Quando completei dez anos de casado, fomos a pedido de minha mulher, fazer uma viagem para o sitio arqueológico de Machu Pichu no Andes peruanos. Durante um City tour na cidade de Cuzco, minha mulher desmaiou. O guia já preparado, carregava uma infusão de amoníaco com folhas de coca e molhando um chumaço de gaze forçou contra seu nariz para que  aspirasse. O efeito foi imediato mas ela passou o dia todo queixando-se de dor de cabeça. No trajeto de volta, chegamos a La Paz, a uma altitude de 3.600m. O hotel em que nos hospedamos era um dos melhores da cidade. Da janela avistávamos o interior do estádio Hernan Siles Suarez, onde ocorriam alguns dos jogos que citei. Deixei minha mulher descansando no Hotel e saí para dar uma volta. Não demorei a perceber que a cidade se localiza nas encostas da cratera de um vulcão e por isso extremamente acidentada. Caminhei uns quinhentos metros até o estádio. Como era descida não senti muito. Seguindo um mapinha, resolvi ir até o mercado do índio. Vi centenas de “Cholitas” com seu chapeuzinho coco, vendendo todo tipo de raízes, folhas e outros produtos usados em medicina natural e em curandeirismos diversos. Analisei as condições do meu fôlego e parecia bem. Fui então para o Paseo Del Prado, a principal avenida da cidade, com alguns prédios modernos e monumentos históricos se contrapondo. Muito suado e ofegante, sentei num café para descansar e tomar um lanche. Poderia chamar  um taxi para voltar, mas meu orgulho não deixou. Iniciei a caminhada de volta. A subida se revelava cruel. Andava cem metros, parava uns cinco minutos. Parecia que o coração ia sair pela boca. Avistando o Hotel, fiz uns cálculos e resolvi pegar  um atalho. Já estava comemorando quando a rua sem saída acabou numa escadaria de uns trezentos degraus. Ou eu subia, ou voltava e andava mais ou menos um quilometro. Minha camisa estava  completamente molhada de suor, o cansaço era imenso, mas ainda assim resolvi encarar a escada. Subi os primeiros cinquenta  degraus e parei exausto e com náusea pelo esforço. Não tinha mais volta. Depois de uma hora e incontáveis paradas venci os degraus, saindo quase na portaria do hotel. Sentei na recepção pálido como uma vela. Depois de descansar uns vinte minutos  e tomar duas xícaras de chá de coca, consegui me levantar e ir para o meu quarto. Abri a porta e disse para minha mulher. Altitude nunca mais. Imaginem se nossa viagem tivesse sido para o Nepal, com altitude entre seis e oito mil metros. Adeus Katmandu!

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