Nunca gostei de fazer caminhadas em pistas com traçado limitado, geralmente redondas, onde se fica dando voltas e voltas, como rato de laboratório. Prefiro caminhar pelas ruas da cidade.  É um exercício delicioso pois também me permite observar ruas, casas, pessoas. Ver um pouco do cotidiano da cidade. Me faz bem para o corpo e espírito.  Naquela manhã saí de casa as seis horas e comecei a andar por ruas conhecidas e a medida que me afastava, procurei ruas onde quase nunca passo, para que meu cérebro também se exercitasse. Caminhava distraído no ar fresco da manhã, tentando colocar ordem no turbilhão de pensamentos, quando um fato me chamou a atenção.  Da garagem de uma casa saía uma camionete Chevrolet branca, com três pessoas conversando e gesticulando. O veículo desceu a rampa de concreto com o motorista aparentemente distraído, atravessou de ré a rua estreita e colidiu com outro veículo, um celta vermelho, que estava estacionado do outro lado da rua. Fato normal, pode acontecer com qualquer pessoa. Analisando pela minha ótica, esperei que os ocupantes descessem para olhar o estrago, procurassem o proprietário para resolver civilizadamente o problema. Resolvi intervir, quando notei que se preparavam para fugir  do local sem dar satisfações a ninguém.  Levantei a mão e gritei “Hei, esperem aí! Vocês bateram no carro”. Surpresos com minha presença, pararam o carro e dois deles desceram. Um de estatura normal que era o motorista, e o outro parecia um pé de jatobá, alto, parrudo e com cara de poucos amigos. Quando se aproximaram, o motorista veio se desculpando “Não vi o carro atrás, estava conversando e não percebi. Como podemos resolver isso? ”. Eu já meio arrependido pois não tinha nada com aquilo, e o grandão parecia mostrar disposição para briga. Normalmente tenho coragem, mas naquela manhã parece que a deixei na cama quando me levantei. Com um fiapo de voz, quase um falsete disse “Vamos começar procurando o dono”.  Aí o brutamontes subiu nas tamancas. “O carro não seu não? ”, “Não”, balbuciei, mal ouvindo minha própria voz. E ele cada vez mais alterado e falando mais alto insistiu, “Você não sabe de quem é não? ”, já louco para dar no pé murmurei, “Não”.  Então, o Golias me segurou pelos ombros, aproximou aquela cara feia da minha, com um bafo horrível de bacalhau amanhecido e disparou “Você não tem nada com isso, está se metendo onde não é chamado. Some daqui infeliz, antes que eu te moa de pancada”.  Ferido nos brios, senti uma ponta de coragem e quis argumentar alguma coisa. Metade de mim ficou disposta a brigar. Mas, a outra, mais sensata resolveu sair dali o mais rápido possível. Nem olhei para trás. Ouvi mais alguns impropérios e depois o barulho do motor se afastando enquanto eu resolvia me concentrar apenas na minha caminhada.

 

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