O Sanatório JK, era um hospital dedicado ao tratamento da tuberculose e suas complicações. Localizado fora da cidade, era o único na Região centro-oeste. Portanto,  recebia pacientes de vários Estados. Estava frequentemente cheio. Em suas enfermarias, na verdade grandes galpões, tentava-se distribuir os enfermos conforme o estágio da doença. Eram estadias demoradas, pois assim era também o tratamento. Fui incluído num dos primeiros grupos para fazer estágio ali. Ainda não tinhamos formado, mas mesmo assim nos revesávamos em heróicos plantões de 12 horas. Só os estudantes, os livros e os pacientes. Exercício de autodidática pura. Tinha sempre um médico supervisionando mas assim que o sol se punha ele ia para casa e ficava  “alcançável”, nos deixando  ao Deus dará. Éramos dois estudantes por turno, e passávamos a noite toda em contato com doentes graves, caquéticos, grande parte deles escarrando sangue. Nossa proteção consistia em uma fina máscara de tecido, e luvas de borracha. Assim corria o tempo sem que ninguém atentasse para aquela situação. Um belo dia, apareci com um resfriado, que aos poucos foi se acentuando passando para um forte estado gripal. De manhã, antes de ir para o Sanatório, tive um acesso de tosse com secreção, que ao ser eliminada, veio com rajas de sangue. Pronto, entrei em pânico, passei a lamentar que ainda tão novo, tinha me contaminado com aquela doença horrível. O que seria de mim? Não queria contar, mas até chorei. Voltei a eliminar secreção da garganta outras vezes, e nem quis olhar, estava convicto de ser o novo tuberculoso da praça. Abatido e já sentindo fraqueza  pela “doença” que eu tinha certeza de ter contraído, segui para o hospital para comunicar ao Dr. Regis, que não pretendia mais pisar naquele Sanatório. Fui recebido pelo afável professor, homem calmo e de muita experiencia, que me apontou uma cadeira em quanto perguntava  “O que houve?”. Ouviu pacientemente o meu relato. Ao terminar ele me tranquilizou, dizendo que era comum os jovens estudantes começarem a somatizar os sintomas das doenças que estavam estudando. Em muito casos  chegavam a passar mal mesmo, era uma situação relativamente frequente. Feliz e me sentindo melhor  me despedi e me dirigi para a saída. Antes que batesse a porta, o professor perguntou “Você já fez estágio na maternidade?”,  “não” respondi, “mas deve ser o próximo”. Então ele sorriu e arrematou a conversa “Cuidado para não dar a Luz”. Então me convenci que não tinha nada, voltei a cuidar dos meus tísicos sem medo. A gripe passou em poucos dias, e não deixou sequelas.

AVP FEV/2019

 

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