Caminhando distraído pela Avenida Goiás, fui abordado por uma mulher loira, queimada de sol, com olhos claros,  magérrima, maltrapilha, com dentes mal cuidados.  Vou chama-la de Lourdes. Se dirigiu a mim e sem rodeios, pediu dinheiro para comprar crack. Tinha um banco vazio a uns vinte metros então convidei-a para conversar. Sua aparência sugeria ter uns cinqüenta anos, mas tinha apenas vinte e nove. Estava em situação de rua há três anos. Fiquei surpreso com seu português correto, e o uso de algumas palavras da terminologia médica. Então ela começou o relato. Natural de Apucarana-PR, não via, nem tinha notícia da família há muito tempo.  Foi sequestrada pelo vício ainda na faculdade de Medicina em Bauru. Primeiro foi cocaína, pareceu-lhe um passatempo sem consequências quando dois “amigos” numa festa a convidaram a inalar aquele pozinho branco. Por umas duas semanas foi de graça, depois não tinham mais, tiveram que fazer uma vaquinha para comprar. Logo em seguida os amigos foram se afastando, mas ela já estava presa nas garras da dependência. E o pior, já conhecia alguns fornecedores. Começou a usar a suada mesada que os Pais mandavam, para comprar a droga. O dinheiro era pouco, e logo teve que partir para uma alternativa mais barata, o crack. É a mesma cocaína vendida em forma de pequenas pedras, misturadas a outras porcarias, para serem  fumadas em cachimbos artesanais. Sendo médica, ela sabia que o crack, é ainda mais devastador que o pó, e com um poder viciante muitas vezes maior. Mas era tarde, já estava totalmente mergulhada no vício. Concluiu o curso, mas não conseguiu trabalho, e não foi aprovada em provas de residência. Então abandonou tudo e se entregou de vez.

          Já vivendo na Rua, dispensou favores sexuais a um caminhoneiro  e com ele conseguiu uma carona. Trocando sexo pela passagem, chegou a Goiânia. Procurei um restaurante  por quilo nas proximidades e levei Lourdes para almoçar. Ela não queria comida, e sim dinheiro para aplacar sua abstinência. Não cedi, e fomos almoçar. Fiquei muito tocado com sua situação. Sendo médico, não conseguia entender como aquela mulher tinha perdido sua profissão para aquele monstruoso vício. Esteve internada duas vezes em serviços de recuperação, mas logo fugia atrás da droga. Lourdes terminou de comer e me agradeceu. Tentei oferecer outros tipos de ajuda, ligar para a família dela, ou coloca-la numa pensão por um tempo. Ela foi taxativa, “A única ajuda que o senhor pode me dar nesse momento, é dinheiro para eu comprar crack”. Entendi então, que ninguém é viciado por que quer, mas porque está preso  por grilhões invisíveis  a um vício muito maior que sua vontade. Remexi os bolsos e encontrando cem reais, dei a ela dizendo mais para me desculpar: “Tome Lourdes, esse dinheiro é pra você comprar comida, promete?”.  “Prometo”, disse ela afastando-se  sorridente. Acompanhei-a com os olhos até que virasse numa esquina.  Profundamente triste disse baixinho “adeus colega”. Já  sabia o destino do dinheiro.

 

 

 

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