Amigos desde o tempo de adolescência, Anselmo e Rui eram o perfeito exemplo de amizade sem retoques. Se entendiam tanto que pareciam adivinhar os pensamentos um do outro. Na vida adulta, após graduarem juntos na Faculdade de Medicina, cada um constituiu sua família e tornaram-se compadres. Anselmo batizou a filha de Rui. Tinham aniversários próximos, Rui em março, e Anselmo em maio.  Com o aniversário do amigo chegando, Anselmo saiu para comprar um presente. Entre várias opções, comprou uma garrafa de vinho alemão, muito consumido na época o Liebfraumilch, pensando: “Não tem erro, o compadre vai adorar”. Pediu um embrulho para presente e se desincumbiu da procura. Estava pronto. No dia dezenove de março, ligou para o compadre, cumprimentou-o efusivamente, e mesmo avisado que não haveria festa, disse que passaria lá a noite para deixar o presente. Passou realmente, e após um agradável bate papo, entregou o vinho ao compadre, que ao abrir teve a reação estereotipada de sempre. “Que legal, é o meu vinho predileto, obrigado”.  Guardou o vinho sem tirar totalmente o embrulho.

No dia onze de maio, Anselmo recebeu pela manhã um telefonema de Rui, que o cumprimentava pelo aniversário, e confirmando que compareceria a noite à pequena reunião de amigos que Anselmo promoveria. Em torno das oito e meia da noite, Rui tocou a campainha. Já haviam convidados lá dentro, e ouvia-se um Jazz delicioso. Anselmo abriu a porta, Rui reforçou os cumprimentos e entregou o presente ao compadre, que de pronto reconheceu o embrulho. Abriu e constatou tratar-se de uma bela garrafa de Liebfraumilch. Sorriu amarelo, pensando, o sacana nem trocou a embalagem. Mas tudo bem, guardou o vinho junto aos outros presentes que recebera. E foram curtir a noite com os amigos que já estavam lá. No ano seguinte, já de caso pensado, Anselmo refez novamente o embrulho do Liebfraumilch, e levou para o compadre. Rui entendeu a ironia de Anselmo assim que abriu o presente, e então propôs uma saída. “Compadre, entendi a sutileza do recado, mas vamos fazer o seguinte. Vamos ficar trocando de mãos esse vinho todos os anos. Após a morte de um, o outro o beberá”. As esposas ficaram como testemunhas do macabro acordo. Assim, o vinho ficou trocando de casa em todos os aniversários pelos onze anos seguintes, quando Rui foi assassinado em um assalto.  Lolita, sua mulher, entregou o vinho a Anselmo, êle adquirira o direito de bebê-lo. Quando alguns meses depois, teve coragem de abrir o Liebfraumilch para fazer uma homenagem ao amigo, veio a supresa,  tinha estragado, virou vinagre. Pensando na grande amizade, concluiu que teria sido melhor se o tivessem saboreado juntos. Mas a vida é assim mesmo.

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