Cabo Charu era boa praça. Estava no exército há seis anos, desde que viera de  Pedro Afonso, no norte de Goiás,  hoje Tocantins. Entrou aos dezoito anos  para cumprir o serviço obrigatório, mas tomou gosto pela caserna,  e foi ficando. Depois de dois anos foi promovido a cabo, posição que inflava seu ego e o fazia sentir-se um super-homem. Correto em suas obrigações, seguia a risca as ordens de seus superiores. Não dava moleza aos recrutas. Comandava treinamentos intensos e exaustivos mas nos horários de folga era grande companheiro. Senso de humor apurado, rei das anedotas. Os soldados o tinham como ídolo.  Numa noite fria de Julho, Charu ficou encarregado da ronda.  Devia percorrer as posições dos sentinelas a cada meia hora, sempre em silencio, procurando surpreender algum dorminhoco. Na madrugada, já cansado, caiu no sono em sua guarita, deixando de cumprir seu trajeto de fiscalização. No dia seguinte, teve uma atitude inusitada. Foi ao livro de ocorrências  e deu “parte” de si mesmo. Relatou com detalhes o ocorrido, e puxou para si toda a responsabilidade. Aquele ato comoveu o Tenente Marcondes, que além de cita-lo na ordem do dia como um exemplo a ser seguido, conseguiu para ele dez  dias de licença como prêmio pela irretocável conduta.  Meses depois, com saudades de sua terra, e com a aproximação do casamento do primo Genival, o Cabo teve uma “brilhante” ideia. Era bem provável que não conseguisse uma dispensa por vias normais para ir ao casamento do primo, Então, não se fez de rogado, voltou a dar “parte” de si mesmo. Acusou-se de desviar mantimentos da cozinha.  O resultado foi bem diferente dessa vez. O tenente o chamou para a frente da tropa, e então passou-lhe pela cabeça: “Me dei bem de novo!”. Mas estava enganado. O Tenente com voz calma mas muito firme leu  a ocorrência autoincriminadora redigida por Charu, e olhando para o cabo disparou: “Você ficará detido por trinta dias, pela infração Idiotice recorrente”.  A punição enterrou suas chances de ir ao casamento de Genival.  Nunca mais acusou a si mesmo. Da primeira vez tinha sido honesto e foi premiado. Da segunda foi velhaco e ferrou-se. Justiça em ambas.

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