O Aprendizado Agrícola Sócrates Diniz, era um internato na zona rural de Anápolis, que recebia meninos entre 12 e 16 anos, para oferecer-lhes ensino convencional, e também ensinamentos práticos em atividades do campo. Esses meninos estudavam e viviam na instituição. Os Pais moravam geralmente a centenas de quilômetros de distância. Deixavam seus filhos ali, e só voltavam para pega-los no final do semestre para passarem as férias em casa. A convivência de tempo integral favorecia a formação de pequenos grupos, geralmente comandados pelo “mais forte”, ou o “mais brigão”. Foi nesse ambiente que Sinval foi se impondo. Era um menino diferente, tinha quinze anos, era irritadiço, revoltado. Não se conformava de ter sido deixado ali pela mãe. esse sentimento de revolta, desenvolveu nele um comportamento fechado, e caladão. Explodia em agressividade ao menor sinal de brincadeira ou provocação. Tinha feito nos dois anos de sua estadia, muitos inimigos e pouquíssimos amigos. Era um garoto forte e poucos se  encorajavam  a enfrenta-lo numa briga. Já tinha feito dezenas de vítimas de seus arroubos de valentia, e por isso era temido e aceito como lider. O primeiro entrevero com Joaquim Reis foi no refeitório. Sinval passou por trás dele, e retirou uma laranja de sua bandeja. Esse fato aborreceu muito aquele nortista de Porangatu,  chegado há pouco mais de um mês. Era tido como rebelde em sua cidade. Os Pais o mandaram para lá em parte para terem um pouco de sossego. Era esse o ambiente.  Nos fins de semana, a garotada se reunia em volta do campo de futebol para jogar ou assistir as “peladas”. Ali deu-se o segundo entrevero. Os dois eram bons de bola. Sinval era atacante, rápido e habilidoso. Joaquim zagueiro vigoroso, que não gostava de perder  a viagem.  O jogo já rolava por mais de meia hora. Jogando em times opostos Joaquim marcava Sinval, e trocavam provocações a cada disputa. Num dos lances, Joaquim deu uma trombada em Sinval para “matar a Jogada”.  Os ânimos se acirraram e houve um empurra-empurra que durou uns cinco minuto. Quando a situação parecia controlada, Sinval aproveitando um descuido de Joaquim que virara as costas, deu-lhe uma bofetada na cabeça seguida de xingamentos. A cara do nortista assustou Sinval que correu em direção a diretoria, mas não conseguiu chegar. Joaquim alcançou-lhe debaixo de uma paineira, e aí o pau comeu. Sinval pedia ajuda, mas ninguém se importou em ajuda-lo. Aprendeu  da pior maneira  como fazem  falta os amigos. Finalmente Joaquim ofegante, parou de bater. Sinval sentado no chão humilhado, passava a mão pela bochecha direita avermelhada pelos numerosos tapas e falou “Isso não vai ficar assim”.  Joaquim que já se afastava, virou-se e perguntou “O que você falou?”, armando o punho para ampliar a surra. Sinval ainda acariciando a bochecha murmurou com a voz quase inaudível “Vai inchar!”. Joaquim Reis assumia ali o comando do pedaço, pelo  menos até a próxima disputa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s