Perdi o contato com seu Efigênio, assim que saí da empresa onde trabalhávamos e segui minha vida como médico. Soube de sua morte há pouco tempo por um antigo companheiro de trabalho.  Era um negro alto, esguio, aparentando uns setenta anos de idade, tinha os cabelos brancos como uma mecha de algodão. Trabalhava como copeiro na diretoria da empresa. É provável tenha estado ali desde a fundação da companhia. Eu trabalhava a noite no centro de processamento de dados Fomos ficando amigos ao longo do tempo. Sempre que o último diretor saía, seu Efigênio me chamava para fazer um lanche lá em cima na copa. Tenho muita gratidão por aquele baiano simpático, de sorriso fácil. Atento à minha condição de estudante pobre, que fazia faculdade de dia e trabalhava a noite. Me esperava na copa com salgadinhos, suco, leite, e outras guloseimas que um ou outro puxa-saco levava para os diretores. Dizia ele “Venha comer meu filho, sirvo essas coisas o dia todo para os vagabundos que frequentam essa diretoria. Nada mais justo que sirva também para você um jovem lutador e com um brilhante futuro pela frente”. Palavras generosas que inflavam meu ego.  Era meio arredio para falar de sua vida, mudava de assunto quando eu tentava saber sobre ele. A poucos dias  de minha saída da empresa, subi para tomar meu lanche, e o achei triste, falando pouco, então insisti em saber um pouco mais de sua história. Ele puxou uma cadeira e sentou-se, olhando fixamente para mim disse “Trabalho arrodeado de gente todos os dias, mas você é meu único amigo, vou te contar um pouco da minha história, resumida, porque completa daria vários livros”.  Respirou fundo, seus olhos estavam úmidos, senti que era a primeira vez que ele iria falar de si mesmo. “Vim da Bahia com vinte e poucos anos, por conta  de uma maluquice que tinha feito por lá, fugindo da polícia e da ameaça de alguns desafetos. Foi legítima defesa, mais a família do morto não queria saber, então vim para Goiás. Fui trabalhar numa fazenda de um figurão famoso, coronel conhecido, de família de gente braba. Em pouco tempo conquistei a confiança do patrão e assumi o cobiçado cargo de jagunço. A mando desse coronel, fiz uma besteira atrás da outra. Matei gente, expulsei famílias pela posse das terras. Fazia tocaia para acerto de contas e um monte de coisas que Deus não gosta. Um dia fui preso, acusado de vários crimes. O coronel sumiu, não foi nem me visitar na cadeia. Fiquei preso quase vinte  anos. Perdi minha primeira família na Bahia, a segunda já em Goiás e estava só no mundo.” O relato se estendeu por muito tempo, carregado de muita emoção. “Por um golpe de sorte e pela mão de Deus, conheci o Dr. Otto, e ele me trouxe para essa empresa. Desde então trabalho nessa copa, e mudei de vida. Moro sozinho, num barracão pequeno, nuca recebo visitas. Esse nosso pequeno encontro diário, é a parte mais feliz do meu dia. Estou triste porque soube que você vai embora, gosto de você como de um filho. Siga seu caminho, trabalhe sempre honestamente, e não se afaste dos caminhos de Deus”. Aí foi a minha vez de desabar. Trocamos um longo abraço de pai e filho. Seu Efigênio me beijou o rosto e foi embora. Nuca mas o vi, mas tenho por ele um profundo sentimento de carinho e gratidão. Siga sua evolução e esteja em paz meu amigo.

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