Seu Antonio Denófrio, era pai de uma colega de profissão muito querida. Depois que se aposentou do Fisco, começou a dar vazão a uma antiga paixão, as letras. Gostava de escrever, e tinha uma razoável pegada literária. Animava-lhe o fato de que a escritora  e poetisa Cora Coralina, publicara seu primeiro livro aos setenta anos de idade. Ele com sessenta e cinco, já estava no lucro. Em poucos meses  era visto pelas ruas, entrando nas lojas, abordando as pessoas tentando convencê-las a comprarem seus livros  que eram editados em pequenas tiragens. Fazia um breve resumo, mostrando as capas dos exemplares que trazia em uma sacola, com a logomarca da “Roche”, um laboratório farmacêutico que a filha  lhe dera. Não eram de todo ruins, traziam relatos variados de sua larga experiência de vida, abordava temas relacionados a família, criação de filhos e incluía alguma religiosidade, católico fervoroso que era. As vezes se aventurava por temas mais polêmicos, tratava de política, moral e bons costumes. Talvez pudesse ser classificado como um escritor conservador ou de extrema direita. Certo dia me presenteou com um de seus livros, que  trazia conceitos muito bons e estimulava  uma saudável reflexão do tema Pais & Filhos. Era comum as passagens dele pela nossa Clínica, onde já era amigos de todos os médicos e funcionários, passava ali horas lendo jornal, tomando café e batendo papo. De repente ele sumiu, estava atarefado escrevendo dois romances que pretendia lançar na feira do livro, que aconteceria em seis meses no Centro de Cultura e convenções.  Quando chegou o evento, fui com minha mulher numa tarde de domingo. Passeando pelos Stands divididos por assuntos: Medicina e saúde, Ciência e tecnologia, informática, literatura estrangeira, literatura brasileira, variedades. Neste último, deparei com uma pequena pilha de livros sobre uma mesa. Distraidamente peguei um e comecei a ler a “orelha” quando vi a foto do autor, era Antonio Denófrio. Procurei em volta mas não o vi. Folheei o livro que tinha cerca de duzentas páginas, e resolvi levar um exemplar para casa. Vou dar uma força para ele, pensei. Algum tempo depois, Seu Antonio apareceu na Clínica, tranquilo do mesmo jeito, conversa agradável. O boa praça de sempre. Ao chegar para o trabalho, deparei com ele calmamente tomando seu cafezinho e lendo uma revista. Me dirigi a ele e após cumprimenta-lo disse: ‘Seu Antonio, comprei um livro seu na feira literária”. Ele abaixou a revista, e me olhando disse sorridente e surpreso: “Foi você?, fico contente que tenha sido um amigo querido”  Ali percebi que ele não tinha qualquer ambição literária. Escrevia porque gostava, e ponto final.

AVP 26/04/2019

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