Dona Tomásia fazia uma sopa de legumes duas vezes por semana por gosto de seu marido Harry, que fazia questão.  Funcionário do Ministério da saúde, trabalhava em ações sanitárias domiciliares, borrifando um produto chamado BHC, nas casas das pessoas, para matar “barbeiros”, insetos transmissores da doença de Chagas. As vezes na cidade, outras na zona rural. Tinha vindo transferido do Piauí há três anos, com a mulher e os seis filhos, quatro deles e dois de criação. Segundo ele aquela sopa era para desintoxicar, temia a contaminação pelo veneno. A mulher caprichava nos temperos, de modo que a sopa cheirava num raio de uns duzentos metros. O bairro era muito pobre, nos casebres vizinhos muito modestos, moravam dezenas de crianças, quase sempre famintas. Geralmente não comiam até que o pai chegasse do trabalho, trazendo um pacote de macarrão, uma carne com osso, um leite, um pão, ou simplesmente um “hoje não deu”. O cheiro da sopa era um forte atrativo. Mesmo antes do seu Harry chegar a noitinha, as crianças começavam a chegar devagar, uma a uma iam sentando ao pé da janela da cozinha. Era organizado, chegavam de mansinho e iam se enfileirando ali no chão, se misturando com os da casa, na esperança que sobrasse alguma coisa para elas. Seu Harry, homem durão, quando chegava de maus bofes, punha a molecada para correr, mas encontrava sempre resistência na mulher. Dona Tomásia se dirigia a ele dizendo “Deixe Harry, as crianças estavam tudinho aí espiando. Devem estar com uma fome amuada, isso não há de fazer falta para nós” E pelo tamanho da panela ela já esperava por eles. Então ele cedia mas salvava sempre seu prato primeiro. Aquela sopa quando liberada para a garotada, era “palhas ao vento”, acabava em segundos. Depois da sopa as crianças iam até suas casas, tomavam banho e ali pelas oito da noite voltavam para assistir ao programa de luta livre chamado Tele catch Montila. Ali estava uma das duas televisões do bairro. A outra era na casa paroquial, e o padre não deixava.  Enquanto viveram no bairro, mantiveram a tradição do sopão e da televisão coletiva. Era como se tivessem uns vinte filhos. Provavelmente sem se dar conta, aquele casal espalhou amor e colheu gratidão de todas aquelas crianças. Chego à conclusão de que os anjos agem assim, de maneira espontânea, sem alarde, vão espalhando pelo mundo, a grande obra de Deus.

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