A Escola era uma das mais conceituadas entre as de nível médio. Combinava ensino tradicional com ensino profissionalizante. Era pública,  e naquele época as escolas públicas eram tão boas ou melhores que as particulares. Ali entrava-se através de uma prova de seleção honesta,  e bem elaborada. Não havia protecionismo por parte de ninguém. Entrava quem tivesse as melhores notas e ponto final. Vinham alunos de locais muito distantes, Toncantinópolis, Porto Velho e outras lonjuras  pelo Brasil afora. Uma parte dos alunos eram internos. Tinham alojamentos confortáveis, salas de estudo para o período noturno, quadras de recreação que podiam ser usadas até as 21:00hs.  Para cerca de 250 alunos internos a escola tinha um funcionário encarregado da ordem e disciplina, um bedel. Não me lembro do seu nome, atendia pelo apelido de Moró. Natural de Arraias (hoje no Tocantins), era baixo, atarracado, branco, de olhos claros, características pouco comum em pessoas da sua região. Viciado em exercícios físicos, estava sempre em forma. Tinha uma maneira curiosa de impor sua autoridade. Se ocorriam deslizes por parte de um determinado aluno, primeiro o advertia, se reincidisse era convidado a escolher uma das alternativas: 1 – Enfrenta-lo no ringue com luvas de boxe. A escola dispunha de um. 2 – Preferia ser denunciado a diretoria, nesse caso as punições poderiam chegar até a exclusão do internato. Aqueles com faltas mais graves e reincidentes optavam pela primeira proposta. Moró batia forte, praticava boxe há muito tempo. Não posso afirmar com certeza, mas acredito que era seu momento de autoafirmação. Considerava aquilo um método eficaz. Depois dos curativos a vítima já saía dali regenerada. E, pasmem, os alunos o adoravam. Com exceção do método que considero exagerado embora eficaz, essa estória se encaixa bem num debate contemporâneo sobre a relação de alunos e professores. Para acabar com a falta de respeito e agressões aos mestres é necessário que restabeleça a ordem e a disciplina. A primeira pode até ser ensinada, mas a segunda tem que ser imposta. Não precisa ser com o sádico método de Moró, mas precisa ser imposta. As escolas não conseguem corrigir a falta daquilo que deveria ser ensinado em casa. Boas maneiras, respeito às outras pessoas, sobretudo as mais velhas. Recebem pedras brutas e são encarregadas de lapidá-las, porém sem os instrumentos necessários. Hoje os valores se inverteram, as escolas públicas são muito piores que as particulares, embora ambas tenham problema. Professores pessimamente remunerados e desmotivados expostos a arroubos de valentia de jovens mimados e inconsequentes. A reforma do sistema educacional deveria começar por reforçar o apoio e devolver a autoridade ao professor em sala de aula. Esperemos que isso venha a acontecer num tempo o mais breve possível para que a paz volte às escolas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s