Maurício sempre foi um cabeça de vento. Esquecia com frequência até suas atividades mais corriqueiras. Se a mulher pedia para fazer alguma coisa era bobagem, ele esquecia. Nunca se lembrava onde deixara as chaves do carro, pagava as contas com atraso. Boa praça, contador de causos, sobretudo os que envolviam sua profissão, respeitados os limites da ética. Era anestesiologista. O único lugar em que conseguia se concentrar era dentro de um centro cirúrgico. Ali era um profissional de mão cheia. Muito solicitado pelos colegas pela competência, e pelo alto astral que trazia para o ambiente austero da sala de cirurgia. Mas assim que deixava o recinto começavam as “avoações”.  Certo dia saiu antes dos colegas pois tinha em sua agenda outra cirurgia dentro de trinta minutos em outro hospital. Chegou ao vestiário apressado, vestiu-se rapidamente e partiu acelerado para o outro compromisso. Quando o cirurgião chegou para trocar de roupa constatou que Maurício vestira a sua. A que estava no cabide não servia nele pois era muito mais gordo. Conformado foi para casa com a roupa de cirurgia. Era seu costume dar cheques pré-datados e mesmo anotando a data no canhoto, raramente se lembrava. O gerente do banco vivia salvando sua pele. Marcava compromissos e não aparecia. Não fazia por mal, apenas não se lembrava. Ele próprio contava suas façanhas e ria as gargalhadas para desgosto de Luiza, sua mulher. Num sábado acompanhou a mulher e a filha ao shopping. Quase nunca ia, mas nesse dia parecia disposto. Estacionou o carro, e não querendo ficar aborrecido com a demora da mulher em decidir o que queria, disse que ia tomar um café e depois esperaria na livraria. Tudo combinado, as duas saíram aliviadas para as compras, estariam livres das reclamações dele.

                 Já  estava naquela livraria há mais de uma hora. Após ler a “orelha” e folhear uns dez livros, optou por um pagou, e foi embora. Assustou-se com o barulho do telefone, tinha cochilado no sofá. Atendeu com voz de sono e levantou-se num salto. “Onde está você mulher? Que brabeza é essa?  No shopping? Fazendo o que?   Eeeeu leveeeei? Ficou imóvel com o telefone no ouvido ainda ressoando as últimas palavras da mulher: “Não precisa vir seu imprestável, vamos de taxi”.  Então caiu na real, olhou no bolso da camisa e viu o ticket do estacionamento. Teria que voltar ao shopping de qualquer jeito. Também tinha vindo de taxi.

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