Final de tarde quente e abafada. Abel afrouxou o nó da gravata e olhou para o relógio, eram quase seis. Vencera mais um dia de trabalho e fazia por merecer uma parada no bar do Toninho, onde se encontravam quase diariamente a mesma galera. Amigos de longa data, paravam ali para tomar umas cervejas e conversar antes de irem para casa. Falavam sobre o trabalho, planos para as férias, o chefe que é um pé no saco. E, naturalmente mulheres. Abel andava tirando os picumãs da chaminé de Cleuza, a telefonista que ficara viúva há pouco mais de um ano, e estava sendo reintroduzida no mercado. Aproveitava para contar suas aventuras amorosas, exagerando um pouco e mentindo outro tanto. Era casado, tinha dois filhos, o que não o impedia de entregar-se a seus ímpetos de Don Juan. Aproveitando as ausências, ridicularizava sua mulher por não desconfiar de nada, e expunha as intimidades de Cleuza. Era digamos assim, um devasso. Sua atitude era deplorável, mas ele se sentia o rei da cocada preta. Enquanto tomava cerveja e caldo de peixe, satisfazia sua plateia com as últimas aventuras. Quando faltava todos reclamavam, parecia radionovela. Ficavam ansiosos pelo próximo capítulo. Aos poucos Abel começou a perceber que sua mulher estava brigando cada vez menos quando ele chegava muito tarde, já não cheirava mais suas camisas, não procurava mais sinais de suas costumeiras traições. Pensou “Finalmente ela se conformou que homem é assim mesmo. Não consegue se dedicar a uma mulher só, coisas de macho. A natureza é assim, fazer o que? ”.  Tereza na verdade desencantou-se com o homem com quem se casara há quinze anos. Lutou o quanto pode, reclamou, brigou, tentou defender seu casamento de todas as formas, mas um dia se sentiu exausta. “Não dá mais, tenho que tomar uma posição. Esse ambiente de brigas e discussões frequentes está fazendo mal para as crianças”. Primeiro pensou em tornar-se uma pessoa passiva, aguentar calada as humilhações do marido, simplesmente deixar para lá, com medo das responsabilidades de seguir sozinha com os filhos. Mas o destino conspirou a seu favor.  Começou instintivamente a prestar atenção aos homens a sua volta. Não demorou para perceber os olhares languidos de Samuel, dono da Farmácia, que já tendo admiração por sua beleza, e percebendo sua situação de fragilidade, posicionou-se no tabuleiro. Conversa vai, conversa vem, até que caíram as muralhas de Jericó. Abel se condoeu todo. Como aquela cínica teve coragem de fazer isso com ele. Nunca deixara faltar nada em casa. As crianças estudavam em escola particular, onde teria falhado? Não percebeu que tinha deixado faltar a principal base para qualquer relacionamento, o respeito.  Tiveram uma conversa séria. Abel quis recomeçar tudo de novo, prometendo completa mudança de conduta. Mas era tarde. Tereza já tinha se apoderado das rédeas de sua vida. Separaram-se. Ela reconstruiu sua vida ao lado de Samuel a quem seus filhos adoravam. Quanto a Abel, continua frequentando o Bar do Toninho, com a mesma turma de amigos salvo alguns que morreram de complicações do alcoolismo. Provavelmente contando as mesmas fanfarronices de sempre. É a vida como ela é.

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