Waldir chegou cedo, antes das sete. Era encarregado de abrir a Empresa. Já não lhe custava muito, fazia isso há tanto tempo que seus reflexos totalmente habituados pareciam estar em piloto automático. Apanhou os jornais na calçada, destrancou a porta principal, depois foi a um pequeno corredor e fez o mesmo com o portão de entrada dos funcionários. Bateu o ponto e dirigiu-se ao setor de contabilidade. Ao abrir a porta assustou-se ao ver ao fundo estendido no chão, junto a sua mesa de trabalho, o corpo de Haroldo, o contador chefe da empresa. De bruços, pernas dobradas de forma estranha, e uma mancha de sangue em suas costas. Percebendo estar diante da cena de um provável crime, recuou instintivamente, fechou novamente a porta, sem saber se ligaria primeiro para o dono da empresa, ou para a polícia. Ligou para o dono, e este para a polícia. Chegaram juntos em menos de dez minutos. O Comissário Celso, recém transferido de Brasília, pediu que isolassem o setor, e se quisessem poderiam trabalhar normalmente no resto da empresa. O diretor a princípio achou que não havia clima, mas depois concordou e iniciou o expediente. Era comum Haroldo trabalhar até mais tarde, principalmente na época de balanço. Quando o cansaço o vencia, fechava tudo e ia para casa, onde vivia só desde que chegara ao Rio. Funcionário de confiança tinha as chaves para entrar e sair quando quisesse.

              O comissário ficou alguns minutos de pé observando o corpo, tentando estabelecer as primeiras linhas de investigação. Não havendo sinais de arrombamento concluiu que o agressor entrara ali sem dificuldades o que fazia pressentir que tivesse a chave, ou que Haroldo teria aberto a porta para ele. Passou de imediato a interrogar os funcionários mais próximo da vítima, sobre possíveis rixas com alguém, desentendimentos de qualquer natureza. Não avançou um milímetro. Os depoimentos faziam crer que Haroldo não tinha inimigos, não devia para ninguém e todos consideravam remotíssima a hipótese de crime passional. Ao que se sabia era devotadamente fiel à esposa que deixara no Paraná. Não havia sinais de subtração de nenhum pertence, relógio, carteira, dinheiro, documentos, tudo estava ali. O comissário fervia os miolos a procura de pistas. Nesse momento foi avisado que o pessoal do IML tinha chegado para recolher o corpo, e que o perito estava ali para fazer os primeiros levantamentos. Alguns minutos depois, entrou na sala um homem baixo, gordo, usando óculos de armação escura e lentes grossas, cabelos grisalhos em desalinho. Ao que tudo indicava já deveria estar próximo da aposentadoria. Andou pela sala, aproximou-se do corpo, pediu ao fotógrafo que o acompanhava para fazer um registro completo da cena. De repente aproximou-se da veneziana de alumínio da janela e observou calmamente um orifício de aproximadamente dois centímetros de diâmetro, com bordos amassados de fora para dentro. Avaliou a posição do orifício em relação à altura do morto e enquanto o comissário estava perdido entre suas hipóteses de autoria, o velho perito disse com voz grave: “Anote aí a causa mortis, bala perdida”. Recolheu suas anotações e saiu com cara de enfado. O comissário pensou por alguns segundos no que ouvira e então caiu a ficha. Agora estava morando e trabalhando no Rio de Janeiro. Dali em diante passou a incluir aquela possibilidade em suas investigações.

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