Meu primeiro contato com a imprensa foi ainda garoto. Querendo garantir uns trocados para as matinês de domingo fui encontrar meu tio, que na época era linotipista num pequeno jornal no centro de Goiânia. Ele me apresentou para o gerente comercial, e solicitou para mim, uma vaga de Jornaleiro. O homem me olhando de cima em baixo, talvez me achando muito novo para o “importante cargo” disse que quanto tivesse uma vaga me chamaria. Meu tio chegou a noite, e me avisou “você começa amanhã”. Ainda estava escuro quando cheguei a porta do Jornal na manhã seguinte. Ali pelas sete o jornal finalmente saiu do “forno” nas palavras de seu Claret, o gerente. Éramos só meu primo, eu, e mais dois garotos. Chegando minha vez de receber os jornais para a venda, solicitei ao gerente que dobrasse minha quantidade pois eu me achava bom para vender.  Tudo resolvido, saí com uns vinte exemplares debaixo do braço e comecei meu périplo pelas ruas do centro. Na época não existiam as bancas de jornais, somente os jornaleiros o que aumentava meu otimismo. “Vou me dar bem” pensava eu. Em poucos minutos ouvi a primeira chamada “Ei jornaleiro! ”, localizei o homem a uns dois quarteirões e saí correndo com minha incomoda carga.  Aparentando estar com pressa, ele estendeu a mão e pediu “O popular”, eu não tinha. “Folha de Goiás”, eu também não tinha. “Que jornal é esse? ”, Jornal do Dia respondi. “Ah, não quero essa porcaria não”.  Conformado segui meu caminho. “Jornaleiro, jornaleiro! ” Dessa vez era uma senhora na janela de um prédio na Avenida Goiás. “Suba aqui, é no terceiro andar. O elevador está estragado, venha pelas escadas”. Subi esbaforido a escada, e cheguei à porta do apartamento. “O popular”, não tenho. “Folha de Goiás” também não tenho. “Diário do Oeste” também não, minha senhora. “Que raios de jornal é esse? ”  Jornal do Dia, respondi já meio constrangido. “Nunca ouvi falar” disse ela fechando a porta. Eu procurava me consolar e encorajar pensando “Podia ser pior, pois o prédio tem uns dez andares, e ela estava só no terceiro”. Chegando novamente à rua, logo ouvi a terceira, a quarta, a quinta chamadas. Todas com o mesmo desfecho. Pouca gente sabia da existência daquele jornal. Voltei então à redação para desistir. Mas, seu Claret era convincente e com uma conversa de “Cerca Lourenço” me fez voltar para as ruas. Ainda hoje ouço sua voz “Insista menino, não desista, a sorte poderá ser sua”. Saí novamente com o pacote de jornais. De longe avistei meu primo sentado num dos bancos da Praça Cívica. Ele também suarento e desanimado não tinha vendido nada. Tentamos por mais umas duas horas e nada. Voltamos pé ante pé ao jornal, depositamos os exemplares numa cadeira, alguns já amassados e molhados de suor e antes que o gerente nos visse, saímos em desabalada carreira. Alguns meses depois, li em “O Popular”, que o dono do Jornal do Dia tinha se matado. As hipóteses eram variadas, dívidas, motivo passional e outros. Aí me bateu uma pequena ponta de remorso. Será que minha desistência não poderia ter precipitado aquele trágico desfecho?

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