Olhando Marina trabalhar parecia fácil. Eram dezenas de pequenas luzes que se acendiam no painel, sincronizadas com um barulho estridente cuja frequência exigia um certo tempo para adaptação. Ela tinha uma desenvoltura admirável e sendo telefonista há muito tempo dominava com maestria aqueles controles. Nas pausas de minhas funções adorava conversar com ela e admirar a rapidez e precisão com que manuseava o seu PABX. Tornamo-nos bons amigos. Vendo aproximarem suas férias, perguntou se eu não poderia substitui-la. Ponderei que não era uma função adequada para homem. Exigia atenção , concentração e um sincronismo raramente vistos no sexo masculino. Ignorando minhas recusas, ela passou a ensinar-me com uma paciência e dedicação que enfraqueceram meus argumentos. Em pouco tempo estava apto a operar aquele aparelho. Marina se sentindo segura por ter treinado um substituto entrou de férias e viajou.

           Na segunda cheguei cedo, e me posicionei para enfrentar o novo desafio. Liguei o PABX e comecei a atendera as primeiras chamadas. Estava indo até bem, apenas alguns pequenos enganos sem consequências. Lá pelo meio da manhã começou a configurar a desgraça. Uma voz feminina pediu para falar com o diretor comercial, Seu Leandro. Pensando tratar-se de uma cliente, respondi que ele não tinha chegado ainda. “Como?, não chegou? Ele disse que teria uma reunião as sete e meia”. Me ocorreu então que deveria ser a esposa dele. Marina teria tirado de letra, conhecia todas as vozes e situações de risco. Saberia que todas as segundas e quintas Seu Leandro armava aquela reunião, passava no apartamento de Celeste, um piteuzinho de quem pagava as despesas, e só depois vinha para a empresa. Com aquele abacaxi para descascar, raciocinei rapidamente e tentando parecer seguro pois a gagueira estava me traindo, disse que a reunião era no escritório de de um cliente. “Qual cliente?” perguntou ela já com a voz irritada. Disse que não sabia, mas assim que ele chegasse eu daria o recado. Ela desligou abruptamente e sem dizer mais nada. Mais ou menos uma hora depois voltou a ligar. Nesse intervalo deve ter ligado para os clientes da empresa onde achava que possivelmente seu marido poderia estar. Mulher é mulher. Olhei para a sala da diretoria e vi seu Leandro em sua mesa, então, sem avisa-lo passei diretamente a ligação. Ao atender, pôs-se imediatamente de pé e a gesticular freneticamente. Pensei, o pau quebrou. Alguns minutos depois, desligou o telefone e me chamou em sua sala. “O que você está fazendo no PABX?”. Meio sem jeito respondi que Marina estava de férias e tinha me treinado para substitui-la. “Treinou? como assim, treinou? ligue as linhas diretas e caia fora de lá. Aquilo não é serviço para homem, muito menos para um Palerma”. Nesse momento caiu a ficha. Percebi que Marina tinha me treinado apenas na parte técnica do equipamento. Esquecera de me apresentar ao lado obscuro da função, que provavelmente a mantinha no emprego há tanto tempo (mais de dez anos), e que tanto lhe favorecia por ocasião dos aumentos. Ganhava mais que alguns técnicos e engenheiros da empresa. Em troca organizava, gerenciava, e cuidava da agenda de sem-vergonhices dos diretores. Uma espécie de alcoviteira informal. Era esquiva e eficiente, não permitia que houvesse choques, superposições e sobretudo suspeitas. Ela era fera. Quando voltou de férias narrei o ocorrido. Com uma gargalhada estridente olhou para os dois lados para certificar que não havia ninguém por perto e falou: “Ensino tudo, menos o pulo do gato”. Concentrou-se novamente nas luzinhas que piscavam, e a vida prosseguiu normalmente. Aprendi a lição, hoje sou cego surdo e mudo para o que não me diz respeito e nem fere a ética coletiva.

 

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