O garoto chorava de fome. Tinha uns quatro anos de idade. Susana, a mãe observa impotente. Quisera ainda ter leite em seus seios para alimentar  os filhos. Eram quatro, em idades decrescentes, todos ali, no chão do barraco, e apesar dos desfavores da vida os outros três dormiam. Já era alta madrugada, seu companheiro não tardaria, e com sorte traria comida, produto dos assaltos da noite. Não assaltava no morro, tinha um código de honra que impedia. Malandro tinha que sair paras “trabalhar” lá embaixo, no asfalto. Tinha que tirar dos bacanas. O morro estava quieto até demais naquela noite. Apurou os ouvidos, nada, não ouviu os ansiados passos do companheiro.  Teve um mau pressentimento. Ouviu ao longe o canto de um pássaro noturno, um curiango talvez. Bicho de mau agouro, vá de retro satanás!  Quantas vezes já estivera naquela situação? nem dava mais para contar. Juntara os trapos com Miguel, há seis anos. Ele trabalhava numa fábrica em Belford Roxo, ganhava pouco mas recebia todo mês certinho. Com a crise econômica a fábrica fechou. Estava desempregado há mais de ano. Como a boca dos filhos não espera resolveu como último recurso tentar aquele indigno caminho. E como vinha tendo um “retorno” razoável, parou de procurar trabalho e acomodou-se na senda do crime. Susana inquietou-se novamente, o silencio era pesado e a assustava. Abriu de mansinho a porta do barraco e deu dois passos para fora observando a subida.  ficou ali por algum tempo, e quando se virou para entrar novamente, soou o primeiro disparo. “Fuzil” Pensou ela entrando em casa. Localizou os filhos no escuro, todos estavam deitados. A fuzilaria aumentou, e o corre corre no morro se tornou intenso. “Acertaram o Lôcha” , gritou alguém. “O Vivinho está morto!” outra voz se fez ouvir. O cenário de guerra se prolongou por mais de uma hora. Quando cessaram os tiros, Susana voltou a conferir os filhos. Todos estavam  bem. Suas preocupações se voltaram para Miguel e sentiu um forte calafrio. Abriu novamente a porta e misturou-se a outros moradores  que também conferiam os estragos. De repente seu coração quase parou. Tinha alguém caído próximo ao último lance de escada. Foi chegando de vagar ao mesmo tempo em que reconhecia o cadáver. Era o seu homem. Segurava ainda na mão  um embrulho de supermercado  que continha pão e sardinhas. Não era muito, mas foi tudo o que conseguiu naquela noite de despedida. Quem o teria matado? A polícia ou quadrilhas  rivais? Já não importava mais, Teria que seguir só em sua caminhada. 

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