Felipe desligou o telefone e foi atrás da mãe, estava fulo da vida. “Verinha ligou e a senhora falou que eu não podia atender porque estava estudando?”. A mãe regando algumas plantas no jardim olhou e disse com calma “Falei sim, e acho que ela também deveria estar estudando. Vocês não querem passar no vestibular?”.  O filho deu meia volta resmungando, não aceitava mais a interferência da mãe em seus interesses, principalmente se metendo entre ele e a namorada. Seus pais estavam separados há seis anos. Sentia falta da figura paterna.  Com a mãe não conseguia debater os assuntos de seu interesse, e tinha certeza de que ela sempre queria subjuga-lo. Se sentia diminuído em ter que discutir seus problemas com uma mulher. Afinal, aos dezessete anos já se sentia um homem, com ideias e conceitos próprios. Como a maioria dos jovens era reacionário, de esquerda. Admirador de Marx, Engels, Gramsci, sem nunca ter lido um livro sequer desses autores. Tinha ídolos mais recentes também, Che Guevara, Fidel, Mao, Kim Jong un.  O sistema capitalista é uma aberração, baseado na exploração dos pobres pelos ricos, dizia ele. Luto pelo socialismo para colocar as coisas no lugar.  No cursinho, sentava no fundão no meio de “revoltados”, viciados, e desnorteados.  Enfim passou no vestibular de Geografia, licenciatura plena. Queria bacharelado, mas mudou de ideia na última hora. Aí caiu num terreno fértil, entrou para o DCE, onde predominava o extremismo político. Em pouco tempo aproximou-se de partidos políticos da esquerda radical. A mãe nunca desistiu dele. Continuou criticando, reclamando, mas sempre ao lado do filho. Tentou convencê-lo a levar a vida mais a sério. Trabalhar por exemplo. A simples menção dessa palavra deixava Felipe arrepiado. Um belo dia disse à mãe que iria se casar. Silvia tomou um susto e reagiu dizendo ao filho que ele não conseguia sustentar a si próprio, quanto mais uma família. Pois Felipe se casou. Apareceu um dia com Verinha a tira colo. Vamos morar aqui até conseguirmos um lugar. Também prestes a se formar em relações internacionais, Verinha pensava em fazer uma pós-graduação em “conflitos tribais na África”, assim seria fácil entrar no mercado de trabalho.   Silvia não viu outra saída a não ser aceitar. Afinal, Felipe era seu único filho. Sua casa que já era pequena, encolheu mais ainda com a chegada dos dois primeiros netos (Gêmeos). A situação perdura até hoje. Felipe já passa dos quarenta, vive às custas da mãe que continua tendo que ouvir que “A burguesia fede”. Trabalhar que é bom? Jamais.

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