O menino subia a rua todas as manhãs. A mando da mãe, costureira, ia comprar aviamentos no armarinho do seu Eliseu. Caminho conhecido, não passava de uns oitocentos metros. Certo dia desapareceu. Não voltou para casa e ninguém viu nada suspeito. Apavorada Rute ligou para a polícia que após os primeiros levantamentos não encontrou pista relevante que pudesse levar a solução do caso. Seu Eliseu afirmou que entregara ao garoto o que constava no bilhete da mãe, e enquanto anotava na caderneta de “fiado” ele se despediu e saiu da loja. O delegado disse que iriam continuar procurando, mas o mais certo é que alguém faria contato, devia ter se perdido pelo bairro, alguém o encontraria e telefonaria avisando. E se tiver sido sequestrado? perguntou um Vivinho? Ainda assim farão contato respondeu o delegado. O que mais intrigava era que o menino já tinha doze anos, era esperto, conhecia as redondezas, e estava orientado a não parar para conversar com estranhos. Rute se sobressaltava a cada toque do telefone. Já se passara um dia inteiro e nada de contato. Impaciente ligava para a delegacia a cada meia hora. Nada, nenhuma pista. Estava desesperada, com aquela demora. Aguentou mais vinte e quatro horas, sem dormir um minuto, e então  resolveu. “Se a polícia não vai, eu vou procurar meu filho”. Refez o caminho do menino naquela manhã, conversou com vizinhos, interrogou seu Eliseu novamente não obtendo nenhum progresso, ninguém dava notícias de seu filho. Andou pelas cidades próximas com fotos do menino, passava pelas emissoras de rádio, televisão pedindo apoio em sua busca sem obter progresso algum. Abandonou sua clientela de costura e dedicou-se exclusivamente ao trabalho de busca. Já estava agora há três anos procurando. Começou a desanimar e aceitar que o garoto talvez estivesse morto. A polícia havia desistido depois de seis meses, acrescentando mais um,  aos já numerosos casos de desaparecimento não resolvidos. Um dia, com pesar, resolveu encerrar sua busca e entregar para Deus. Chegando em casa, tomou coragem e começou a desmontar o quarto do filho, onde nunca mais tinha entrado desde que ele se fora. Queria doar suas roupas e seus poucos pertences, livros, chuteiras, bola, uma raquete de ping-pong que comprara para ele em São Paulo. Ficaria apenas com a lembrança de seu rosto e de seu sorriso. Folheando seus cadernos Rute leu uma frase de uma redação que o filho fizera sobre “Profissões”, em que terminava afirmando “quando crescer quero ser mágico, e trabalhar num grande circo”.  Passou então a flertar com a ideia de que o filho não estaria morto, mas teria fugido para se juntar a algum circo. Passou os dois anos seguintes, vasculhando os circos pelo Brasil afora. Fora informada que na mesma época um circo havia se instalado numa cidade próxima. Levantou o nome, mas logo veio a decepção. Tinha fechado as portas. Não desistiu continuou procurando por mágicos, assistentes de mágico em todos os circos de que tinha notícia.  Estava muito cansada, decidiu que aquele seria o último, não podia passar o resto da vida buscando talvez um fantasma. Informada pelo proprietário de que ali não haviam mágicos, virou-se para ir embora quando viu um rapaz de costas tratando dos animais. O instinto de mãe a fez parar e chamar pelo nome do filho. O rapaz se virou, era o seu menino.

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