Há quase trinta anos não voltava lá. Em companhia de meu irmão, saímos do asfalto e nos dirigimos pela velha estrada de chão em direção a fazenda, onde passamos boa parte de nossa infância. De longe a avistamos no fundo de um bonito vale.  Aproximamos devagar enquanto as lembranças afloravam. A fazenda hoje arrendada para estranhos, ainda conservava muito das características originais. A velha casa estava lá, com pouquíssimas modificações. Apresentações feitas ao novo caseiro começamos a circular pela propriedade. Parecia que estávamos no túnel do tempo. Entrei pela casa ouvindo a voz de minha mãe cantando “meu primeiro amor”, e espremendo queijos com as mãos. o rego d’água foi desviado, mas a velha bica ainda indicava a direção do monjolo. As árvores do quintal estavam lá majestosas. Mangueiras, abacateiros, e um pé de tamarindo plantado por meu Pai. O bambuzal foi arrancado, talvez pela sua expansão espontânea e desordenada. A velha represa, parecia parada no tempo, do mesmo jeito.  Instalações como currais, cocheiras, tronco para o manejo do gado, feitas com aroeira resistiram ao tempo e continuavam em uso. Ao percorre-las meu irmão e eu fomos apontando os lugares de nossas “grandes façanhas”. Ali você caiu do filho da Salamanca disse eu, (fazíamos às escondidas pequenos rodeios montando nos bezerros), ele concordou e revidou  “Nesse piquete você foi derrubado pelo Yucatan”, um touro da raça indiana Gyr, eu já nem me lembrava, e passamos umas duas horas ali, revivendo mentalmente nossas aventuras. Éramos cinco irmãos, alguns tios e primos de grata lembrança, alguns deles já não estão entre nós. Quando dizem que recordar é viver estou plenamente de acordo. Debrucei-me sobre a cerca do curral ouvindo as ordens de meu Pai:  “Corre, cerca lá, deixa de ser mole”. Homem durão era meu velho, mas muito amoroso. Terminado o passeio entramos novamente naquele túnel que nos trouxe de volta a realidade tão dura de hoje, agradecidos por termos vivido aquele tempo mágico onde tínhamos soluções imaginárias para tudo. É sempre bom quando podemos reabrir  as gavetas de nossa alma, e escolher coisas boas e edificantes para recordar. Percebo sem sombra de dúvidas, que muito do que sou hoje foi moldado na vivência daquele feliz e inesquecível período da minha vida. Acho que a maioria das pessoas pensam de maneira parecida. Estou errado?

4 Comentários

  1. Olá meu querido irmão,que bom ler este texto, foi realmente uma mágica viagem no tempo. Pudemos ouvir a linda voz da nossa santa mãe, ouvir de novo as broncas de nosso saudoso pai ( rever nossos já idos primos, tios tias,avós e amigos.Na compania de todos eles nos tornamos jovens por alguns momentos. Obrigado ao caseiro (João Filho) por nos acomodar e obrigado à você que com seu texto me fez voltar a sonhar. Um grande abraço.
    Milton

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  2. Que bom que voces puderam revisitar, talvez a parte mais prazeirosa da nossa infancia. O lugar de rever mamãe, de tomar banho e pescar no corrego, lugar onde até os carrapatos eram bem vindos. O lugar das guerras de bucha de laranja que sutilmente nos preparavam para as guerras da vida, e onde as delicias da vida se resumiam em doce de leite com queijo feitos por D. Odilia, delicias capazes de aplacar toda a amargura de uma semana longe dela. Muito bom mesmo.

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