Aposentado e com tempo livre, Antenor  resolveu  entrar numa aula de dança de salão. Reclamava sempre de duas grandes frustrações na vida. Não ter aprendido a tocar violão e nem a dançar. Tentou quando jovem, mas conseguiu pouquíssimo progresso nas duas coisas. A primeira por falta de dom, a segunda por excessiva timidez. Agora resolveu  chutar o balde e recuperar o que ainda for possível do tempo perdido.  Clarinha sua mulher e ele, fizeram matrícula num estúdio de dança conceituado na cidade. Chegando lá, a grande maioria dos professores eram tão jovens, que Antenor teve receio de pegar sarampo ou catapora. Muito receptivos e cordiais se mostraram alegres com a presença do casal. Entraram na turma normal, pois não haviam turmas para a terceira idade. Foram feitas algumas adaptações para incluí-los, com introdução de  ritmos mais lentos que alguns nem conheciam, como bolero e valsa. À medida que foram se acostumando com os ritmos e com o grupo a coisa foi fluindo e já tirariam  nota cinco numa escala de um a dez. Mas nem tudo são flores. Quando chegou a vez do samba no pé apareceram alguns contratempos. O molejo de ambos estava  a quilômetros do ideal. O preparo físico então!  Mas Antenor não queria entregar a rapadura apesar dos seus quase setenta anos. Fez uns alongamentos mais demorados e se sentiu pronto para o famoso samba. Estava até bom enquanto tocavam sambas mais lentos. Ele ali, se sentindo um verdadeiro passista. De repente foram aumentando a velocidade, Antenor foi junto. Baixou nele o espírito do Gilberto Sorriso (gari da Sapucaí). Clarinha, mais comedida ficou só enganando naquele passinho picado. Antenor foi com tudo, se achando o máximo. O professor, vendo que ele estava segurando a onda, acelerou mais ainda e por fim cruzando as pernas, abaixou-se e fez um giro completo.  “É mole” pensou ele. Cruzando as pernas, se abaixou para fazer o giro. Deu ruim. Ouviu o estalo travando sua coluna e o som da calça rasgando nos fundilhos. Caiu sentado no meio da sala, sentindo uma dor intensa na coluna.  Acabou a aula. Não se moveu até a chegada da equipe do SAMU. Enquanto estava ali no chão sendo consolado por Clarinha e os professores, pensou “Olhando eles fazerem parece tão fácil”. Só que esqueceu-se do fator idade. Quando se vê um idoso sambando de maneira fluente, pode ter certeza que ele começou logo depois do sarampo e da catapora. Prometeu a si mesmo que vai continuar, mas nos ritmos mais adequados à sua idade. Bolero, Valsa… Acabou ali o sonho que já estava alimentando de vir a ser um mestre-sala com Clarinha de porta-bandeira. Não dá mais. Conformou-se em aceitar as cobranças do tempo.

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