Em sua base eleitoral, as sete da manhã, o velho deputado virou-se na cama resmungando. Estranhou o chamamento do assessor. “Acorda deputado, estamos atrasados, o vôo é as dez horas”. De que diabos de vôo ele está falando? hoje é segunda feira”, pensou ele. Levantou-se lentamente e abriu a janela. O sol fez doer seus olhos. Vivaldo estava de pé junto a camionete do partido, e reiterou o chamado “Rápido temos que chegar até as nove no aeroporto, avião não espera, e é vôo comercial, a empreiteira não vai mais emprestar o jatinho”. Parlamentar há quase trinta anos o deputado Lourenço Cunha não se lembrava de alguma vez ter acordado tão cedo e muito menos de já ter trabalhado numa segunda-feira. “Você sabe que dia é hoje seu imbecil. Segunda feira, seguuuunda. Só vamos para Brasília amanhã cedo”. Começou a fechar a janela lentamente quando Vivaldo perguntou “O que digo para o doutor Resende? Ele ligou convocando o senhor, disse que precisa de todos no plenário hoje. Vão discutir uma tal de procedência, providência, algo assim”. Não conseguia se lembrar direito a palavra. “Previdência idiota! Que dia ele ligou?” O assessor percebeu a ira crescente no chefe “Hoje, ele já está em Brasília” respondeu. Conformado o deputado disse que iria se arrumar, estaria pronto em meia hora e fechou a janela. Enquanto se barbeava lembrou que tinha ouvido um boato na Camara, sobre trabalharem a semana toda. Mas pensou que aquela idéia absurda não iria prosperar. Afinal as sessões plenárias, que realmente tinham importância, há décadas só aconteciam de terça a quinta feira. Pensou em ligar para Resende e tirar satisfações, mas logo desistiu. Aquele filho da puta é bem capaz de me passar um pito. Ajeitando a gravata pegou a pasta e partiu pois o dever o chamava, e bem mais cedo do que ele estava acostumado. Estranhou quando chegou ao Aeroporto e ali encontrou todos os Deputados do seu Estado. Estavam igualmente indignados com aquela inusitada convocação. “Será que é só essa semana?” perguntou um deles e quase se desesperou quando ouviu a resposta “Não, parece que são novos tempos. Agora vamos ter quer trabalhar igual as todos os brasileiros, a semana toda”. Na verdade o presidente da casa já tinha alertado a todos que o parlamento iria reassumir suas prerrogativas legais. Voltaria a ter o protagonismo que dele se espera e que determina a constituição. Chegando a Brasília a maioria deles foi direto aos seus gabinetes. “Bom dia deputado!” Saudou alegremente Janete sua bela secretária. Lourenço resmungou alguma coisa e entrou rápido em sua sala. Prestativa, a secretária foi atrás com uma lista de compromissos nas mãos e um recado verbal do presidente da Câmara. “O Doutor Resende mandou avisar que as discussões sobre a previdência começam hoje, e ele espera ter tudo aprovado até sexta-feira”. Olhando pela janela do anexo quatro, o velho parlamentar avistou o palácio do Planalto e pensou: “Devo estar tendo um pesadelo. Isso é coisa desse novo governo, só pode ser. Tudo está mudando para pior. Onde já se viu ter sessão a semana toda? Querem acabar com a classe política? Vou fazer uma carta de repudio. Afinal não fui eleito para exercer trabalho escravo. Só falta agora retirarem nossas mordomias e benesses. Mas é bem capaz de alguém ainda se lembrar disso, pois nada é tão ruim que não possa piorar”.

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